quarta-feira, 29 de maio de 2013

50 pessoas...VITOR VIEIRA ALVES


É bastante difícil falar do Mané num momento como este, em que a mágoa foi o legado de uma relação terminada, para mim em 2012...formalizada a meu pedido em fevereiro de 2013. Conheci-o há mais de 30 anos. Jovem "retornado" de Angola que começou a frequentar a Igreja de Cedofeita, onde começamos a conviver no Departamento da Juventude. Desse convívio brotou um amor. Como todas as paixões, começou cheia de encanto e entusiasmo e a cumplicidade foi-se gerando. Casamos a 15 de Abril de 1983. Éramos muito jovens mas determinados apesar das nossas características de personalidade bastante distintas. 
Juntos conquistamos muita coisa. Foram muitos anos...Vivemos momentos muito bonitos! Fomos felizes.
Não pondo nunca em duvida as suas capacidades, o seu profissionalismo e inteligência, o Mané  foi a pessoa que me deu as maiores alegrias e as maiores tristezas, direi mesmo, as maiores mágoas e decepções. Se com ele vivi a alegria do amor , da maternidade, da cumplicidade, da partilha, do companheirismo, do apoio na dificuldade, da educação dos filhos comuns, da valorização das minhas capacidades pessoais, do alcançar esforçado dos sucessos académicos e profissionais de cada um,das férias em família,do prazer das viagens...
aprendi também o que é a traição, a mentira, a vaidade, o convencimento e o egoísmo. E demorei a compreender isso! Pensava que havia valores que eram imutáveis e que o  sentimento que nos uniu era forte e sincero, apesar dos problemas…e olhava-o sempre de uma forma bastante “cor-de-rosa”, bastante amorosa. Nos últimos anos eu amava sózinha e não sabia. Era casada comigo própria. Mais tarde compreendi que se pode ser bom actor na vida real. Ainda hoje não suporto a ideia de ter sido enganada por uma pessoa a quem eu me entreguei fielmente e quis tanto bem.
Mas por tudo isto, ele marcou a minha vida fortemente. Gostaria de o guardar no leque das boas pessoas, de postura exemplar e sublime pelo carácter, pelo sentimento…é impossível!

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sempre as visões

" Nós não vemos o que vemos, nós vemos o que somos. Só Vêem as belezas do mundo, aqueles que têm belezas dentro de si."                                                                                            Rubem Alves

50 pessoas...GUALDINA MARQUES


Com uma imagem de marca inconfundível - os lábios rubros e os sorrisos rasgados, assim a conheci em Perafita. Uma professora vistosa, dedicada e opinativa, sempre! Apenas trabalhei com ela durante um ano letivo, depois desenvolveu a sua atividade docente noutra  escola, deixando de privar comigo no quotidiano da vida escolar. Mas, a amizade ficou e o convívio manteve-se, embora programado. Apesar das grandes diferenças de personalidade que a igualdade de Signo me faz espantar e desacreditar no Zodíaco, sempre nos identificamos. Eu mais calma ela mais decidida!...Com ela partilhei muito da minha vida...continuo a fazê-lo!. Considero-a de facto uma amiga importante neste percurso de 50 anos.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Guerreiros


Lutam melhor aqueles que têm sonhos belos. Somente aqueles que contemplam a beleza são capazes de endurecer sem nunca perder a ternura. Guerreiros ternos. Guerreiros que lêem poesias. Guerreiros que brincam como criança.
                                                                                                                                Rubem Alves

segunda-feira, 13 de maio de 2013

50 pessoas...FÁTIMA e JORGE REIZINHO

Conheci-os quando?...não sei a data exata, devia ter 17 anos, pouco tempo depois de ter iniciado o namoro com o Mané, irmão da Fátima. Lembro-me muito bem da forma simpática como me receberam e da primeira vez que fiz uma refeição em sua casa...a famosa moamba de galinha. Foi um almoço de família com os meus sogros e também sobrinhos ainda pequenitos. Desde esse tempo acho que se estabeleceu uma forte ligação entre nós. Daquelas químicas inexplicáveis apesar das diferenças. O convívio não teve uma regularidade sistemática. Viamo-nos sobretudo em casa dos meus sogros. O que guardo destes meus, então cunhados, é o grande espírito de recomeço. Tinham vindo de África após a descolonização e quase sem nada! Tiveram que recomeçar a vida no que isso supõe de grande esforço, sacrifício e coragem. A par disso tiveram que saber lidar com a revolta interior pelo injustamente sucedido e ter a acalmia para educar os seus dois filhos.Com temperamentos muito diferentes, o bom espírito do Jorge e a inquietude dinâmica da Fátima, fizeram uma conjugação de sucesso e aí estão. Não significa que tenham enriquecido mas vivem honestamente em espírito de família. Admiro-os muito.Estão sempre prontos a ajudar. Sem duvida que guardo com enorme carinho os momentos conjuntos, salientando os Natais irrepetiveis que saboreamos durante vários anos.
Aprecio ainda o sentido artístico e estético da Fátima que se revela em várias àreas , nomeadamente na pintura. Do Jorge saliento a sua paciência,compreensão e simpatia. Ambos amorosos!

domingo, 12 de maio de 2013

50 pessoas...ROSA SANTOS

Mulher forte, decidida, destemida e com grande capacidade de trabalho. Diz sem receios tudo o que pensa, sem calar nunca o que julga injusto. Tem tanto de lutadora como de amiga. Os seus sentimentos são genuínos e por isso a admiro tanto. Ama ou detesta com a mesma intensidade. Eu professora , ela auxiliar de acção educativa com quem trabalhei de forma muito estreita , sobretudo num trabalho específico com a população do Bairro Social de Perafita. Ficamos muita amigas mantendo sempre um enorme respeito uma pela outra. A D. Rosa (assim a trato) tem por mim uma enorme amizade e consideração e isso é visível até hoje. Em momentos difíceis que passei, ela ajudou-me desmedidamente. Nunca esquecerei tamanha amizade, dedicação e solidariedade. Fazia tudo para minorar a minha tristeza. E ai daquele que dissesse algo de menos bom àcerca de mim!!!!! Foi incrível! Estamos distantes mas eu sei que continua fiel a uma amizade genuína  Talvez eu não tenha sido suficientemente grata para tamanho apoio que ela me deu. Gosto muito dela. Admiro muito o seu percurso de vida e as suas conquistas. Grande mulher!

50 pessoas...OLINDA , MARIA E ANA


Juntei estas três amigas porque, curiosamente, surgiram e permaneceram no meu percurso de vida em simultâneo. Todas professoras do primeiro ciclo  do ensino básico, conheci-as numa terra muito especial - Perafita, num Agrupamento de escolas pioneiro. Foi precisamente quando a Professora Maria Emília Vaz me convidou, em 1998 para Vice-Presidente da Comissão Instaladora desse emergente Agrupamento escolar, que todo este relacionamento surgiu. Personalidades muito distintas, desde a discrição e a generosidade da Ana, passando pela exuberante personalidade da Maria até à sensibilidade "mimalha" da Olinda, todas têm um forte traço em comum, a amizade em todas as circunstâncias. E todas temos outro traço que também nos une...a positividade e a alegria.São amigas que permanecem até hoje, que compartilharam muitos dos meus sucessos, lutas e derrotas. Sentem comigo o bom e o mau, sem juízos de valor.Apenas estão ao meu lado a rir ou a dar colo.
Passaram os anos, só eu e a Olinda ainda estamos no activo e só a Olinda ainda em Perafita. A amizade continua...

sexta-feira, 10 de maio de 2013

50 pessoas...MÁRIO CLETO

    (em S. João da Madeira nas férias)

"-Queria ter umas tranças, como a PiPi! " dizia eu que adorava as séries da "Pipi das meias altas". O meu cabelo não estava comprido e esse desejo tornava-se mais utópico. Mas o meu tio, que visitava de vez em quando o sogro, com a sua paciência e imaginação, pegou nas barbas de milho, arame  e entrelaçando nos meus cabelos, improvisou as tranças da Pipi.Duraram poucos instantes mas a alegria que senti ainda hoje recordo com ternura.
Desde pequenina que tenho pelo meu tio a maior consideração, simpatia e estima. Lembro-me de conversar muito com ele e do enorme prazer que sempre retirava. Continua a falar brandamente, com uma expressão cativante e contagia todos com as suas risadas genuinas. Não me lembro de o ver zangado!Lembro-me bem de fazer jogos, passear,ver as estrelas e de me encantar a vê-lo cortar melões em forma de cesto, para ir com a devida apresentação à mesa.
Que bom tê-lo por cá!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

50 pessoas...SILVESTRE ALVES



Chamava-lhe eu Lélé, a um avô de nome Silvestre.
Só de pensar nele logo um sorriso terno me curva os lábios. Tenho a memória preenchida de muito boas lembranças. Era um homem sociável, educado, comunicativo e brincalhão. Tinha uma personalidade vincada, por vezes austera, mas perante as crianças e os animais transfigurava-se. A imagem que guardo é de alguém muito simpático, disponível e alegre. Convivi muito com ele nas chamadas “férias grandes”, as férias escolares. Vivia em S. João da Madeira, o que para mim foi um privilégio enorme. Estar na sua casinha térrea, conviver com ele e com a minha avó Adelaide,  num ambiente rural, perto da mata, cheio de animais, com a criançada a brincar na rua e eu com toda a liberdade para correr e andar de bicicleta, que mais poderia eu querer? Mas tinha ainda a sua paciência para me consertar brinquedos e me fazer baloiços e tachinhos de brincar . Levava-me ao mercado e eu, menina da cidade, ficava deslumbrada com tudo aquilo, sobretudo com os coelhinhos, os patos e os pintainhos que estavam para venda. Lá em casa quando as galinhas punham ovos enfiava-me no capoeiro e gerava uma autêntica revolução aviária. Ele ria das minhas ideias…e chamava-me “Oh rapariga!...”
Muitas vezes ía ter com ele à Subestação da UEP, onde ele trabalhava. Entrava dentro do recinto, de bicicleta, como se fosse tudo meu. O meu avô dizia-me muitas vezes para não fazer aquilo mas…de vez em quando esquecia-me e o ímpeto infantil e a minha traquinice levavam-me até àquele lugar espaçoso. Conheci os seus colegas de trabalho e ele explicou-me muitos dos registos que fazia e dos postos de alta tensão.

Era um avô generoso. Todos os meses me dava (a mim e ao meu primo Joel) uma quantia a que chamava de “pré” para eu comprar o que entendesse. Na Feira do Livro, embora ele não desse um especial valor à leitura, sempre me oferecia um livro do meu agrado. Dava-me imensos biscoitos e bolachas.
Quando vinha até casa dos meus pais, normalmente em momentos que eles viajavam e eu ficava sozinha, sempre procurava arranjar o que estava estragado e cuidar do jardim da casa. Desde ir ao telhado até cortar a relva…fazia tudo!
Tinha ainda o bom hábito de estabelecer um período de dieta  durante 3 dias mensais…bebia sumos, comia muita beterraba e dizia que esses dias eram para “limpar o organismo”.Adorava pregar-me partidas e ria-se disso com enorme satisfação.
Cuidou com extrema dedicação da avó Adelaide, que ficou quase imobilizada durante anos. Preocupava-se imenso com ela e com o seu bem estar…
Porque era também um homem de fé, ofereceu-me uma Bíblia, a que uso ainda hoje! Dava importância às questões espirituais e nunca me deixou fazer  férias de igreja!
As falhas de memória que surgiram no fim da sua vida não o fizeram esquecer a educação e a afabilidade. Assim, embora se esquecesse um pouco dos bisnetos, sempre os tratou muito bem.

Foi um avô delicioso…sempre…até morrer!
Grande avó esse de nome Lélé!!!!



segunda-feira, 6 de maio de 2013

50 pessoas...MARIA LOBO

Uma senhora simples e afectuosa. Foi vizinha dos meus avós maternos e tinha duas filhas gémeas da minha idade. Foi assim que a conheci!Tinha uma pequenina  casa humilde onde eu adorava estar e onde brinquei muitas vezes. Chamava-me Queli e oferecia-me bolachas com o seu nome que ela nem sabia ler. E na mesa da sua sala saboreava-as como delicias raras juntamente com uma caneca de leite. Lembro do seu sorriso constante e da sua satisfação em me ver comer na sua casa. Recordo a paciência com as minhas traquinices. A simplicidade das pequenas coisas e dos pequenos gestos que deixam grandes marcas na vida da gente!

domingo, 5 de maio de 2013

50 pessoas...CASIMIRA DE LIMA


" não te aborreças, daqui a 100 anos anda cá outra gente!"



A vida passa rápido e a velhinha Casimira já não está entre nós. Faria hoje 92 anos! Guardo os seus múltiplos ditados populares, a sua história de vida, o saber estar, a sua discrição, a grande memória e lucidez. Ah! guardo também na memória o seu saboroso empadão de carne!


Não sendo uma pessoa de grandes manifestações de afetos, senti que tinha uma consideração especial por mim. Eu também a amei de uma forma muito própria. Compreendi-a para além do tempo presente, aceitei-a com todas as marcas que um passado doloroso deixou nela.Descobri que a sua personalidade era um misto de sofrimento, luta, resignação e paciência...muito pouco amor e ternura! Era uma mulher forte, sem parecer! Conseguiu viver as maiores adversidades e num mundo marcadamente alfabetizado viveu sem nunca ter ido à escola nem ter aprendido a ler segundo os padrões convencionais...arranjou as suas próprias leituras!Foi uma esposa que esteve sempre ao lado do marido. Trabalhou muito e poupou ainda mais...Sempre se preocupou com os filhos...Recordo o  último abraço que me deu, na entrada da sua casa, quase a chorar, sem ninguém ver...Recordo a última vez que a vi com vida...aí fui eu que chorei sem ela nem sequer dar pela minha presença.

Foi uma boa sogra! Guardo-a no coração!

sábado, 4 de maio de 2013

50 pessoas...ISABEL BARREIRA


Em 2006 fui colocada em Sobrado. Foi nessa altura que conheci a Presidente do Agrupamento de Escolas – Drª Isabel Barreira. Na realidade a primeira impressão não foi a melhor. Achei a Isabel alguém bastante autoritário e distante. Não tendo que privar com ela esta relação foi-se mantendo assim, marcadamente hierárquica e formal. A aproximação deu-se quando sentindo-me injustamente tratada resolvi escrever à Presidente. Senti que era alvo de difamatórias interpretações. Impôs-se um diálogo entre ambas onde tudo foi esclarecido e os juízos que fazíamos uma da outra se alteraram por completo. Assim, em 2009, inesperadamente, a Isabel convida-me para integrar a sua equipa de Direcção. Aceitei! E de 2009 até à presente data, da convivência diária, do trabalho conjunto foram-se criando laços que ultrapassaram o mero contacto profissional. Nasceu assim uma enorme simpatia que veio a crescer em amizade. Uma amizade enorme, de uma empatia invulgar. Partilhamos genuinamente as alegrias e tristezas uma da outra. E neste período de tempo deram-se brutais transformações nas nossas vidas pessoais. De tal forma a relação se estreitou que confidenciamos os mais íntimos pensamentos e os mais reservados dos segredos. Desta feita, com uma imensa ternura, a 25 de Janeiro de 2013 fiz à Belita um “pedido de irmandade”…não tendo irmãos escolhi-a para minha irmã, passando a declarar que a partir daquela data tinha uma irmã que é borboleta. Não nasceu de pai e mãe, nasceu da metamorfose da amizade.
Há pessoas que aparecem no nosso caminho nos momentos que mais precisamos…às vezes penso que Deus poderá ser o autor desses encontros…será?

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Paradoxo


Aquele cego que toca na Rua de Sta Catarina nem imagina o quanto significa para mim! Não me vê e eu vendo-o tenho visões alargadas...e ele nem sonha que me provoca visões! Um cego que dá visão a quem já vê! Os paradoxos da vida!

terça-feira, 30 de abril de 2013

Raquel

Com 6 anos de idade!...

50 pessoas... MARIA CÂNDIDA DA SILVA VALENTE FIGUEIREDO ALVES


Mãe, que verdade linda
O nascer encerra                                                                                      

Eu, nasci de ti .
Como a flor da terra !
                   Matilde Rosa Araújo

A minha mãe ,  já não está na terra…apenas plantada no meu coração. Foi uma mãe muito paciente, terna e de uma grande sabedoria. Senti o seu amor cada dia…escrever sobre ela é difícil. Tenho na memória as mais gratas recordações e lembro as suas gargalhadas contagiantes de uma alegria imensa. A fé era outro seu atributo que exemplarmente levou até ao fim desta vida terrena. Ficou um grande vazio com a sua partida e por vezes imagino-a junto de mim a viver os meus sucessos e tristezas… Houve momentos especiais em que me lembrei dela de uma forma  particular. Por exemplo quando concluí a Licenciatura em Ciências da Educação e, no dia em que fui “cartolada” ,só o meu pai estava lá, e faltou para sempre na minha fita laranja a assinatura da minha querida mãe (com a sua bela caligrafia!). Por isso…com essa tristeza desabafei:

Metades                                                                                

Metade da fita por assinar
Metade dos beijos por receber
Metade da alegria por repartir
Metade de mim à chuva...
Metade ao sol!
Só metade senti...


Deste laranja em metade
Um amarelo azedo escorreu
O teu amor vermelho adormecido
Congelado em mim
Não derreteu...
Gelou metade de mim...


Só metade de mim
 de laranja foi vestido.
Só metade de mim
Enlutado se enegreceu.
Nas duas metades de mim
Te senti...e desejei...
Te revivi... e  busquei...
Em ambas te amei!...
Em ambas a Deus odiei!

Maio /2002


Após a sua partida escrevi vários textos como forma de contornar a saudade. Ora aqui está uma carta:


Água de madeiros, 2 de Julho de 1996

Sabes mãe, o mar daqui continua lindo. A paisagem quase imutável!
O pai tem continuado só e eu tenho continuado eu. Às vezes um outro mar escorre dos meus olhos. As lágrimas são salgadas e tu sabes que eu gosto do doce. E estou mais gorda…tenho comido muito doce. Mas nunca choro doce, porque será mãe? Pois é isso, chorar é sempre triste, triste e amargo! A tristeza salga e endurece a vida e , se nós deixarmos a vida fica intragável. E tu que tinhas um riso doce e eu podia olhar-te sem engordar! Era bom…lembras-te?
Diz lá mãe, é verdade que estás bem?é bom viver aí distante? Não tens dor nem tristeza? Nem salgado?
Com a tua partida deixei de saber exprimir correctamente o meu sentir. Aqui dentro de mim ficou uma tempestade e a sequência de ideias são difíceis. É que há um mar encapelado, ruidoso, tempestuoso e salgadíssimo cá no meu interior e as ondas viram palavras, gestos e lágrimas em turbilhão.E, por muito que as ondas se espraiem continua uma fúria imbatível e incompreensível em vai-vém. Quando é que vens mãe?
Tua filha
Raquel


segunda-feira, 29 de abril de 2013

50 pessoas...MARIA EDUARDA AZEVEDO





Tinha eu os meus 6 anos cheios de vivacidade quando entrei para a escola primária nº 30 - S. Roque da Lameira, aluna da 1ª classe da senhora professora D. Maria Eduarda Azevedo.
 Esta professora acompanhou-me desde esse momento inicial até ao último dia da 4ª classe.Se na altura tinha por ela uma deferência e admiração especiais, hoje isso redobrou. Era uma mulher que eu achava muito alta. Tinha um porte elegante, não só por ser magra, havia nela uma elegância muito própria. A sua delicadeza feminina, o seu perfume, a forma de vestir, o aprumo dos seus materiais, a alvura da bata e o seu ar sempre arrumado, davam-lhe o título de uma autêntica senhora.



                                                                         
A única professora que conduzia e que chegava à escola no seu Volkswagen carocha preto.
Como professora era exigente mas compreensiva. Hoje reconheço que face ao seu desempenho e ao tipo de atividades que propunha era de facto "à frente" para o seu tempo.Valorizava também a criatividade e os trabalhos manuais. Por outro lado acho que por minha causa, esqueceu a parte religiosa do programa. A única vez que rezamos foi uma situação invulgar. Eu fechei os olhos à espera que a professora orasse...lembro que se gerou um profundo silêncio de admiração e que todos pararam a olhar-me. Rezaram mas a partir desse momento nunca mais se repetiu tal situação.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

50 pessoas...JOSÉ GONÇALVES

A imagem que guardo é a de um homem exemplar e bom...profundamente altruísta, crente e positivo. Privei com ele, sobretudo em criança. Era Pastor da Igreja Protestante que eu frequentava, com a família. Depois, por opção dele e de sua esposa Ulla, retirou-se da Igreja, para desenvolver(em) um trabalho religioso de outro âmbito. Voltei a encontrá-lo há alguns anos, já regressado de África, com um ar quebrantado, sempre humilde e com uma afabilidade extraordinária. Acho que Deus a ser bom, amoroso e próximo de nós, terá espelhado no Pastor Gonçalves essas características . Ele é de facto um santo homem de Deus.

terça-feira, 16 de abril de 2013

50 pessoas...PATRÍCIO MEDEIROS


O Patrício era um menino extraordinário que veio com a família, das barracas, para uma habitação social no Bairro de Perafita. Conheci-o ainda pequenito no Jardim de Infância mas foi sobretudo na escola do 1º ciclo que tive um maior contacto com ele. Desde novinho que revelava uma sensibilidade especial e diferente das demais crianças. Normalmente calmo e observador era vulgar vê-lo no jardim da escola a observar as flores. O seu realojamento no Bairro não foi sinónimo de melhores condições de vida. A desgraça abateu-se sobre aquela casa. O pai, sustento da família sofreu uma trombose e ficou incapacitado. A mãe ficou deprimida e a casa ficou sem rumo… notava-se que andavam andrajosos , sujos, magros. Faltava tudo naquela habitação. Não tinham luz, nem água, e muitas vezes eram vistos nos contentores do lixo à procura de comida. Ora o Patrício andava na escola…aí chegava diariamente cada vez mais branco, sempre com a mesma roupa e mal arranjado. Tinha no entanto um enorme sentido de família. Foi difícil descobrir que não havia comida naquela casa porque ele para proteger a mãe nunca se queixou da falta de refeições. Mas tudo ganhou grandes proporções e a anemia comprovada não podia permitir que aquela condição continuasse. Assim,  a sua sobrevivência levou-o a ele e aos irmãos mais novos, para uma instituição.!…Tenho saudades das conversas ingénuas e dos comentários sensatos com que me premiava cada dia que o levava ao "colégio". Parava para lanchar com ele e, ele para devorar comida comigo. Eu tinha apetite, ele tinha fome!…Com ele aprendi a ver o mundo de outra forma e a reparar em pormenores. O que para mim era banal para ele era extraordinário. Andar com ele em determinados locais era como que trazer ao meu lado alguém que tivesse vindo de outro mundo…a sua educação, humildade e sensibilidade ficarão perpetuamente na minha mente. Há anos que não sei dele!...sei o que ele me deixou!
 


Toques...

toque de saída da escola
Teu recolher obrigatório
Regresso a casa
Casa…campo de concentração
Onde, és escravo de um lar,
prisioneiro de uma pobreza,
vítima de loucas decisões 
abandonado a ti próprio.
E só, na confusão do caos e do nada
Enfiado em trapos sujos de dias
és alimento de parasitas…
sem alimento próprio.
Até quando?…
Enquanto sobreviveres?
Aguardas um toque de saída de casa!

Raquel Alves (2003)

50 pessoas...RAÚL GONÇALVES


Frequentava então o 7º ano de escolaridade do Liceu Rainha Santa Isabel. Uma turma supostamente mista que só tinha 3 rapazes . E a constituição desta turma era "sui generis". Não sei como em tempos revolucionários surgiam ideias tão cretinas. A minha turma era composta por alunos cujo nome iniciava por R. Então era sobretudo uma turma florida de tanta Rosa! Mas por lá andava uma Raquel, um Raul… Tinha 12 anos quando o conheci. Da mera camaradagem diária passou a algo mais especial. A constantes momentos a dois. Posso considerar que este foi o meu primeiro amor, no que isso tem de encantador, apaixonado e  puro. Pela primeira vez o meu coração adolescente brotou para um sentimento amoroso com uma intensidade avassaladora. O Raul era um adolescente querido,  muito terno e cavalheiro. O sentimento era recíproco mas a idade não permitiu o namoro e ficou o amor platónico! Foi no entanto algo muito marcante na minha vida. Um amor inspirador de poemas e diários. 

sábado, 6 de abril de 2013

50 pessoas...STEPHEN STOER


Ter tido o privilégio de o conhecer foi para mim inolvidável. Mencionar o seu inquestionável valor como professor e o impulso dado ao trabalho científico na área das Ciências da Educação, seria uma injusta distração. Não considerar as suas opiniões, seus saberes e estudos em matérias como a Multiculturalidade e teorias de exclusão social, seria insensatez. Mas, guardarei na memória, para além deste vasto conhecimento, a serenidade do seu olhar, a humildade (de quem é sábio), os laços que criava com os outros…também comigo. Fui sua aluna, senti realmente que, por trás do seu sorriso, havia um afeto natural e uma postura de abertura ao outro - aluno. Penso que se aproximava da visão de Rubem Alves em que“…os docentes, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor, intérpretes de sonhos.” Sorte que tive em conhecê-lo!
Sem duvida que como homem era também exemplar, tanto como companheiro, como pai…Grande homem este!
Ficou-me na memória para sempre… As pessoas boas morrem cedo!