terça-feira, 7 de setembro de 2010

Enterrar...Bibliotecas


Soube ontem do falecimento do simpático avô António, já velhinho, que vivia em Sobrado. Foi um prazer conhecê-lo e apreciar a sua colecção de miniaturas de utensílios de madeira que ele mesmo talhou. Lindo! Há uma citação, referida frequentemente pelo meu pai, a que me acostumei , de que “quando morre um velho enterra-se uma biblioteca”. E, se durante muito tempo me questionava acerca desta afirmação, hoje compreendo-a. Quando um velho termina a sua vida, com ele partem inevitavelmente todas as suas vivências, saberes, histórias, cultura. E na diferença de vida de cada um, haverá sempre uma longa história , rica de experiências…Ficarão na nossa memória todas as pequenas recordações significativas, os comportamentos deliciosos e marcantes. No entanto a essência dessa vida…os escritos dessa história, são enterrados na morte.

E sabem, já vi enterrar bastantes bibliotecas!

domingo, 15 de agosto de 2010

Sobre o ver...


Definitivamente, eu que tenho o privilégio de ter os cinco sentidos apurados (assim os aprendi na Escola Primária), elejo a visão como o mais fantástico. Ver, é algo de fascinante! Podem pensar que passei por uma cegueira temporária, mas não! É verdade que muitas vezes só valorizamos o que possuímos pela falta que sentimos. E, quanto ao belo pensamento de Saint-Exupéry de que “O essencial é invisível aos olhos”, continuo a subscreve-lo mas com a ressalva de que os olhos são essenciais a muitas visões.

Poder viajar e deleitarmos o olhar em belas paisagens, nos diversos brilhos,

nos tons…encontrar a beleza de uma paisagem agreste, de um edifício histórico, de um mar tempestuoso, de uma pintura, de uma infinidade de flores, da transparência de um rio, do planar de um pássaro, do colorido de uma penugem, da iluminação nocturna, do olhar terno de um cão e descobrir as estrelas num céu escuro…é, entre outras tantas coisas, cultuar o nosso olhar! Os mais críticos e pessimistas dirão que sou uma romântica (até que não se enganam!) e que não vejo as más construções, o lixo, os incêndios, o mau gosto...

Vejo isso também! Claro que uma visão atenta vê tudo. Aplica-se à visão o que se aplica à forma como nos relacionamos, como desejamos a sociedade em que nos integramos, como construímos o universo das nossas relações, como contribuímos para um mundo melhor. Podemos ser bons ou maus seres humanos, temos toda a potencialidade para seguirmos qualquer rumo. Podemos captar só

o "negro" ou o "arco-íris" do que nos rodeia. Quanto à visão…não será mais ou menos o mesmo? Estou em crer que sim!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Partida de Matilde

Os dias vão, os dias vêm e Matilde adormeceu hoje com o calor do Verão...

HISTÓRIA DO SR. MAR

Deixa contar...
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda...
Com muita onda...

E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...

A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe...

Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Festas de S. João









Tradições fascinantes como a Bugiada de S. João em Sobrado, são relíquias de guardar na memória das nossas experiências de vida pelo mundo. Não fora o concurso de professores e, provavelmente, nunca conheceria uma Festa tão bonita.

A poucos quilómetros do Porto, com um santo popular também venerado na minha Cidade Invicta, com uma noitada muito calorosa, dificilmente seria cativada a deslocar-me a uma pequena vila vizinha, para um festejo Sanjoanino. Mas, o acaso do concurso levou-me até Sobrado. Quanta sorte!... Na minha alma tripeira há lugar para um S. João do alho porro, cascatas, balões e sardinhas, mas abriu-se também espaço para um S. João de Mourisqueiros, Bugios e as bandas a tocar.

Sobrado apresentando grandes traços de ruralidade, onde o dia a dia ainda corre ao sabor das estações do ano ,com habitantes pacatos e bastante humildes, nada me faria pensar que guardava uma história singular com uma representação tão fascinante, rica e colorida. Guardam um tesouro que é mostrado anualmente! A grande maioria dos Sobradenses vibram com esta festividade e nela têm um grande orgulho. Como costumam dizer, têm paixão pela Bugiada. Por isso, ir no dia 24 a Sobrado é como sermos actores e envolvermo-nos na representação de uma luta lendária ente Bugios (Cristãos) e Mourisqueiros (Mouros).

Ficamos contagiados pelo entusiamo e pela beleza desta Festa. Ver crianças bem pequenas a participar como Bugios é enternecedor e demonstra a vivência de uma tradição que tem alma. Alguns dizem que este gosto vem no sangue e perpetua-se de geração em geração.

Confesso-vos, eu devo ter levado uma transfusão!

domingo, 20 de junho de 2010

Epitáfio

Ainda correm lágrimas pelos
teus grisalhos, tristes cabelos,
na terra vã desintegrados,
em pequenas flores tornados.

Todos os dias estás viva,
na soledade pensativa,
ó simples alma grave e pura,
livre de qualquer sepultura!

E não sou mais do que a menina
que a tua antiga sorte ensina.
E caminhamos de mão dada
pelas praias da madrugada.

Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)'

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Um dia assim...

Há dias assim…lindos de tão radiantes de sol, tristes e tempestuosos no nosso interior! E ficamos ainda mais tristes por não nos sincronizarmos com a beleza natural desse dia. Nesses dias abraçamos os sorrisos, repousamos nos olhares amigos, sorvemos palavras de apreço…Há dias assim em que quase cegamos.

domingo, 13 de junho de 2010

Teorias...

A nossa percepção do mundo e das pessoas advém da maneira como o captamos. Temos a tendência natural para encontrarmos regularidades, irmos caracterizando, categorizando e assim nos apropriamos da vida em sociedade. Muitas das nossas ideias, que achamos estruturadas e correctas constroem-se destas vivências. Isto tudo para dizer que nessas “leituras” que vou fazendo de quem me rodeia, cheguei a uma “teoria”. Uma “teoria” nada científica!

Há pessoas com quem me identifico claramente em poucos minutos, outras levam algum tempo para empatizar e outras ainda, tenho que aprender a compreendê-las. Mas, como sou humana, há aquelas por quem não nutro simpatia e nem tento comunicar. Um desses grupos era, nada mais nada menos, homens de cabeça rapada. As minhas poucas experiências de convívio e as figuras públicas com esse visual confirmavam esta minha conjectura. Para mim, estes eram homens convencidos, metrosexuais, de um vaidosismo doentio que até doía de tanta prepotência. Pessoas parcas em reflexões e sensibilidades, dadas ao culto do corpo. Resumindo, pessoas desinteressantes. Ora aqui estava a minha “teoria”.

Mas…o que havia de me acontecer? Em pouco tempo conheci três homens com este visual, que derrubaram este meu estereótipo. Todos têm a cabeça redondinha de calvície opcional e são excelentes seres humanos. Os três têm como inicial do nome a letra A. São os três da mesma estatura e são de uma ternura fascinante. Foi uma sorte tê-los conhecido! Tenho por eles uma enorme consideração.

O 1º A é de Abel. Líder religioso Protestante, com 62 anos de idade. Tem uma vasta cultura histórica e é alguém com quem se pode conversar horas a fio, sem se reparar que o tempo passa. É saboroso escutá-lo. Tem um grande coração e uma sensibilidade que me toca. É literalmente um cidadão do mundo, um defensor do ecumenismo e um bom homem de fé.

O 2º A é de Alexandre. Professor em funções de Direcção, com 32 anos de idade. A sua afabilidade e o tom de voz sempre baixo são a imagem de marca. Sem vaidade, revela-se um óptimo profissional e de uma grande dedicação. É alguém de quem se gosta naturalmente.

O 3º A é de Albino. Director de uma Escola, de 43 anos. Tem uma série de atributos intelectuais a que se pode juntar a sensibilidade, o encanto, a disponibilidade. Aplica a matemática à vida…arranja tempo para tudo o que considera importante, porque o organiza.

Estes pequenos tópicos apontados para cada um, são realmente diminutos face às suas qualidades.

A minha “teoria” ruiu! Conheci estes carecas espantosos! Agora estou a pensar…será que todos os homens válidos com estas boas qualidades têm o nome próprio a começar por A ?

(Foto recolhida na Internet, de um qualquer anónimo...)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Quero sabedoria II


Este post é a conversão de um comentário do meu amigo Tsiwari, que eu aqui vos lanço como uma bela reflexão. Não conhecia este episódio. Obrigada meu amigo!

Aos 17 anos, imberbe e cândido, possuía na gaveta toda a natureza metrificada e escrita, num caderno a que pus este título de sabor botânico: Lírios do Monte. Anos depois (...) parti com um amigo em peregrinação de estudo para o campo (...) - Olha: aqui tens os abrolhos. Já os conhecias? - Não, respondia eu, em êxtase de ignorância lírica. Só sabia que abrolhos rimavam com olhos. E as boninas? As que rimam com as colinas? Onde estão? (...) Um dia encontrámos no vale uma flor entranhamente roxa. - Que é? perguntei curioso. Nunca vi essa flor! - Nem eu, respondeu o meu companheiro (...) Passados dias (meu Deus! Que vergonha!) entra-me o meu amigo pelo quarto, a gritar: - Sabes que flor é? - Não! - Não fazes ideia, pá? - Não! - Faz um esforço! - Não! - Pois ouve e não desmaies: é um lírio do monte! (...) Quando lembro este episódio e folheio, colérico, os ignóbeis Lírios do Monte, sinto ganas de ir à procura de todos os meus antigos professores do liceu para pedir-lhes explicações e quebrar-lhes a cara! (...) Vocês são os responsáveis de tudo: das boninas, das avenas, dos abrolhos a rimarem com olhos, dos lírios a rimarem com martírios e de toda a minha ignorância do mundo exterior a empurrar-me para a ilusão de só existir beleza dentro de mim.
José Gomes Ferreira, O Mundo dos Outros

sábado, 5 de junho de 2010

Quero sabedoria

" Os conhecimentos dão-nos meios para viver. A sabedoria dá-nos razões para viver.Sábias são as pessoas que sabem viver. Tolo é aquele que, tendo defendido tese sobre barcos e mapas, não sonha com horizontes, não planeia viagens, não imagina portos..."

Rubem Alves in "Livro sem fim"

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Conjugação de passos

O meu eu interior, desritmou do meu eu corporal.
Não conseguem andar lado a lado!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Envelhecer



É bom envelhecer!

Sentir cair o tempo,
magro fio de areia,
numa ampulheta inexistente!

Passam casais jovens
abraçados!...

As árvores
balançam novos ramos!...

E o fio de areia
a cair, a cair, a cair...

Saúl Dias, in "Essência"

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Samuel Úria - Império

As vezes apetece-nos músicas assim...

sábado, 8 de maio de 2010

À minha Mãe


Oh mãe!
Com esse lençol pequenino bordado e rendado com tanto mimo, me aconchegaste no berço de verga. Eu cresci e o lençol ficou pequenino e alvo no gavetão da cómoda.
Oh mãe!
Outrora o usaste com amor e ternura no meu berço infantil. Hoje eu usei-o com ternura e amor para aconchegar o que de mortal e corruptível restou da tua vida.

O meu lençol pequenino, jaz agora, aconchegado no sepulcro de minha mãe.
Raquel Alves - 2009

domingo, 11 de abril de 2010

Rua do Almada


A Rua do Almada deve o seu nome ao governador geral da província e da cidade do Porto, João Manuel de Almada e Melo, enviado para a cidade no início do século XVIII, pelo Marquês de Pombal, a fim de reprimir a Revolta dos Taberneiros.

João de Almada e Melo tomou a iniciativa de renovar a cidade, "abrindo-a " para fora das muralhas e depois abrindo a "sua" rua [do Almada], que na altura se chamava Rua das Hortas, dando-lhe continuidade até à Praça da República.

As obras, naquela que se tornaria uma das primeiras grandes artérias da cidade, começaram em meados do século XVIII. A rua foi(...e ainda é), por um lado, o centro do comércio de ferrageiros, onde se comercializava tudo o que dissesse respeito a ferragens. Por outro, tornou-se uma das zonas aristocráticas do Porto, acolhendo, perto da Praça da Liberdade, as grandes famílias da cidade. Ana Plácido, a "amante querida" do escritor Camilo Castelo Branco, foi uma das célebres inquilinas desta rua.

A rua conserva, segundo Germano Silva, "as mais bonitas fachadas oitocentistas do Porto". Felizmente algumas delas têm sido reabilitadas e hoje dão morada a uma população mais jovem. Verdade!...Por lá mora agora o meu filho.

terça-feira, 23 de março de 2010

O que fazer?...o que pensar?...

Este meu espaço poderia chamar-se de Diário, se assim o fosse, na frequência. Nele confidencio os meus pensamentos que o quotidiano me leva a reflectir, derramo os meus sentimentos e os meus desabafos e alegrias. Estou a avisar o leitor para que não me apelide de chata!

Pois um acontecimento recente passado numa escola, levou-me a um encadeado de reflexões que hoje aqui exponho.

Perto da entrada dessa escola, num belo dia de manhãzinha, dois indivíduos resolveram oferecer aos alunos que passavam um pequeno livrinho azul…Uma professora atenta, de imediato denunciou o caso à Direcção, dizendo que uns tais de “Jeovás” estavam a distribuir livros às crianças. Resultado: uma recolha imediata pelas turmas de toda essa literatura. Fantástico!...A Escola é Laica!

Mas, será que alguém se preocupou em ver o que eram realmente aqueles livrinhos azuis, oferecidos na via pública? Esses livrinhos azuis não eram nada mais, nada menos, do que pequenos Novos Testamentos Bíblicos e continham ainda o Livro de Salmos e de Provérbios, portanto eram Literatura Cristã! Eram uma publicação custeada pelos GIDEÕES- Organização Internacional de Homens de Negócios, sem fim lucrativos, que se dedicam a difundir estas porções Bíblicas pelos Estabelecimentos Prisionais, Hotéis, escolas, repartições públicas, navios etc.

A vida ensinou-me a ser compreensiva. Às vezes tenho receio em dizer tolerante pois isso parece conter um certo sentimento de superioridade…tolero, logo sou superior, pois condescendo para com a inferioridade do outro.

O compreender nem sempre significa aceitar. Mas estruturo-me muito mais neste confronto de ideias e de culturas. O mundo é tão vasto e eu sou ínfima nesse contexto mundial! Estou sempre a aprender e a confrontar-me como pessoa.Por isso, sendo defensora de uma escola laica, acho este episódio estranho. Primeiro porque prezo muito a liberdade, também a religiosa. Depois acho esta atitude tacanha por parte dos professores e inábil por parte das pessoas que distribuíram a literatura, embora estivessem na via pública.

Para além de 3 sacos de lixo cheios...não sei o final da história!...

Na minha mente ficou a dúvida, se os indivíduos estivessem a distribuir folhetos com imagem da Nossa Senhora, haveria a mesma preocupação com a laicidade escolar? Se estivessem a distribuir propaganda a uma Sex shop, a uma bebida exótica açucarada, a professora seria na mesma actuante e preocupada com a Educação para a Saúde dos alunos? Se esta literatura fosse distribuída pelo Padre e pelas catequistas, qual a reacção?

Já agora nunca encontraram estas publicações em hotéis? Não me digam que só eu vejo estas coisas? Quando encontrarem uma destas publicações abram no livro de Provérbios, capítulo 3, versículo 13, lerão o seguinte:

"Bem aventurado o homem que acha sabedoria e, o homem que adquire conhecimento"

Amén

terça-feira, 2 de março de 2010

Lá longe...





Imagem de uma partida, no Aeroporto Sá Carneiro.
Sei que por lá, por Milão, tudo está a decorrer bem.
Os sorrisos nascem felizes em cada dia e a curiosidade
acorda desperta em cada manhã. Pelo menos é a minha percepção, através da distância.
Hum...já sinto algumas saudades!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Domingos Barbosa


Vivo rodeada de pessoas. Aquelas por quem passo inadvertidamente, aquelas que os horários nos comprometem a ver diariamente e, aquelas que têm uma história especial que se cruza com a minha própria existência.
Uma das pessoas marcantes que conheci, desde sempre, foi o Sr. Domingos Barbosa, agora já octogenário há uns anos! Poderia aqui tentar descrever o que o torna realmente especial. É-me difícil fazê-lo. A imensa ternura, admiração e o respeito que lhe tenho esvaziam-me de palavras correctas para o fazer. Fica uma emoção forte dentro de mim...
Sei que a sua vida brevemente terminará. Hoje em forma de desabafo e de homenagem deixo a sua foto num momento de declamação e um poema que, julgo, ele subscreveria, sem receio.

e, depois de eu morrer...
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas-- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
 
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.
 
                                         Alberto Caeiro

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A ti Priscila...


Despedida

Uma parte de mim
parte sem mim
e, assim, partida,
em mim nasce repartida,
ávida e sem fim,
a vida inteira, enfim.


Mia Couto - 2004

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Noivado...casamento

Errar

Na escolinha,
a menina,propícia a equívocos, disse:
- Masculino de noiva é navio.

Repreenderam, riscaram, descontaram.

Mas ela estava certa.

Noivados são mares
de barcos pares.

Mia Couto - Maputo, 2006


Sem qualquer erro ou hesitação, desejo uma boa viagem aos noivos, ao casal!...Viva!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Para além dos Invernos

Vive uma árvore já adulta, num jardim de uma vivenda, numa Avenida de Valongo. Igual a tantas outras, desnuda-se pelo Inverno e tem folhas verdejantes em pleno Verão. Grande parte do ano é uma árvore vulgar. Estamos em pleno Inverno e eu olho-a em cada dia. Tronco escuro e ramos como que em forma de raízes a tentarem prender-se ao céu. Parece uma árvore seca, sem graça alguma. Passam-se meses em que a vejo assim.

Porém, eu sei que no final de Janeiro, mesmo com o céu toldado de cinzento e um frio de nos gelar os ossos, ela inicia o seu florescimento. Aí está a sua identidade. E eu conheço-a!Os meus olhos fazem o parto desse nascimento.

Olho-a sempre com a certeza desse alvo florir. Antecipo a visão de beleza que me vai deslumbrar. Sei que há um belo segredo no interior da seiva dessa Magnólia.

Ah! Se nós conseguíssemos olhar mais além!

Quantas pessoas são como esta árvore? Guardam uma beleza interior que nós não vislumbramos. Vemos o agora, o imediato e nem colocamos como hipótese a esperança! Quantas pessoas não vemos, ou só as vemos porque parecem ressequidas! Mas o pior é derrubá-las pela sua aparência!

sábado, 26 de dezembro de 2009

NATAL


"...O Natal é um poema. Nele Deus se revela como criança. O Deus adulto é terrível: grave, sério, não ri, não dorme, seus olhos estão sempre abertos e nem mesmo têm pálpebras, jamais esquece, e registra tudo nos seus livros de contabilidade que serão abertos no Dia do Juízo para o acerto final de contas. O Deus adulto dá medo. Nele não há amor. Isso nada tem a ver com uma criança: criança é esquecimento, riso, brinquedo, um eterno começo… Não é por acaso que o Menino Jesus tenha fugido do Deus adulto.

Prefiro o Deus criança. No colo de um Deus criança eu posso dormir tranquilo."

Rubem Alves

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Carta ao menino Jesus


"Querido Menino Jesus:
Este ano comportei-me muito bem e, por isso, peço-te que faças o favor de me trazeres uma bicicleta nova.
Com um beijinho
Joãozinho"

Põe a carta debaixo da árvore de Natal e vê a imagem de Maria que, do presépio, olha fixamente para ele. Arrependido rasga a carta e escreve novamente:

"Querido Menino Jesus:
Creio que este ano me comportei bem;fazes o favor de me trazeres uma bicicleta.
Atentamente
Joãozinho"

Dispõe-se a colocar novamente a carta debaixo da árvore, quando observa que Maria continua a olhar fixamente para ele. Rasga de novo a carta e volta a escrever:

"Querido Menino Jesus:
Este ano não me comportei lá muito bem mas, se me trouxeres uma bicicleta, prometo comportar-me melhor no próximo ano.
Joãozinho"

Vai levar novamente a carta à árvore mas repara que Maria não retira os olhos dele.
Rasga outra vez a carta e desesperado, agarra a imagem de Maria e mete-a dentro de uma caixa que esconde em seguida.

Escreve de novo:
"Jesus:
Tenho aqui sequestrada a tua mãe. Se quiseres voltar a vê-la, deixa uma bicicleta debaixo da árvore de Natal e não vale a pena intentares chamar a policia Judiciária.
Joãozinho"

(Este texto foi recolhido de uma revista e o seu autor é João Manso)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Dedicado à mãe Hiolanda

Pequeno poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais... Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe..
.


Sebastião da Gama

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sem ver

Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

As Mãos e os Frutos
Eugénio de Andrade 1923-2005)

Luto contra esta falta de visão, este adormecimento de um olhar toldado pela rotina, pelo desânimo, pelo peso dos dias de tédio. Como passar por tanta coisa que nos pode estremecer de encanto, de deslumbramento e seguir com umas palas que só nos deixam ver os buracos do chão, o lixo. Até nas folhas caídas e pintadas pelo outono, apenas ver lixo...
Não haverá oftalmologista que nos valha! Chamem os poetas e a magia. Lavem o olhar...

sábado, 14 de novembro de 2009

Indisciplina inteligente

Numa aula de Língua Portuguesa

O aluno pergunta: - Stôra como é que o Camões ficou só a ver de um olho?

Professora: Não sei mas isso é irrelevante.

Aluno: eu não acho…estava aqui a pensar que se ele tivesse os dois, conseguia ver a folha de papel completa .Será que escreveria boa prosa?

Gargalhada geral.

O aluno foi mandado para fora da aula.

Eu que não estive lá, achei o máximo!

domingo, 8 de novembro de 2009

A autoridade dos professores

“Têm que restituir a autoridade aos professores”, é uma afirmação ou uma reivindicação caricata. Parece que a autoridade pode ser roubada, tal como uma carteira, perdida e encontrada num “serviço de perdidos e achados” ou oferecida como uma camisola confortável.

E, os mesmos sindicatos que reclamam do modelo de avaliação (sem apresentarem quaisquer modelos alternativos), enchem a boca com tal necessidade.

A ser o Ministério da Educação e a sua Ministra (cessante) os responsáveis por tal ausência, a solução seria fácil, bastaria publicar uma lei com o seguinte ponto:” O Ministério da Educação defende a dignidade de todos os professores, conferindo-lhes toda a autoridade no desempenho das suas funções docentes.”.

A questão da autoridade, quanto a mim, está a ser vista pela perspectiva errada. É no quotidiano escolar que essa autoridade é demonstrada. A autoridade pratica-se e, só assim, pode ser reconhecida. E, é nesse quotidiano, que eu tenho visto as formas mais ridículas de afirmação docente, de autoritarismo puro, não de autoridade! Lembrei-me, até, de sugerir à nova Ministra da Educação, conceituada escritora juvenil, de acrescentar uma nova obra à sua colecção “Uma Aventura…com a autoridade dos professores” . Cada dia a minha admiração aumenta face ao que presencio.

É evidente que a massificação do ensino, a denominada ESCOLA PARA TODOS no acesso (que, teoricamente, também o procura ser no sucesso), numa visão inclusiva, veio transformar a escola numa micro-sociedade complicada, mesmo não pretendendo aqui reflectir na integração das crianças com deficiências associadas. O desenvolvimento acelerado que se vive na sociedade ocidental conjugado com a globalização (do bom e do mau) invadiu-nos. É claro que as crianças/adolescentes que estão em processo de desenvolvimento e de educação, são seduzidas por tudo isto. Estão permeáveis a tudo e, ainda mais, ao que é apelativo. São aliciadas pela imagem, pelo despertar sexual e pelas experiências que lhes são propostas, pelas drogas que possibilitam alucinações, pelas novas tecnologias, pela música…

A escola está conceptualizada num modelo e num ritmo desajustados das vivências reais dos alunos.

Por vezes professores e alunos parecem ter códigos diferentes de comunicação. Não conseguindo comunicar, consequentemente há um afastamento por incompreensão.

É criado um fosso entre ambos de que resulta falta de confiança do aluno no professor. E essa barreira é terrível num contexto que se pretende de educação.

Ser professor hoje é muito exigente. Mas, se os professores se modernizam no aspecto, nos penteados e suas colorações, no vestuário, nos bons carros que adquirem, até na forma como constituem família, porque não se modernizam em novas atitudes, no bom relacionamento com os alunos, em formas criativas de abordar os conteúdos programáticos?

Dá trabalho, não dá? Requer empenho. Pois é! Esqueci-me disso! As futilidades são mais apelativas! Engraçado, porque também o são para os alunos!

A questão é que aos docentes é-lhes exigido que sejam agentes educativos. E sê-lo é sempre! Dentro das escolas também há os professores praticantes e os não praticantes, tal como nas religiões. Até há os fanáticos! Mesmo assim, os praticantes são poucos, mas são aqueles que seguindo objectivos têm um propósito profissional, são-no em qualquer espaço do estabelecimento escolar. São-no quando sobem e descem escadas, quando vão para a fila do refeitório, quando utilizam os sanitários, quando conversam nos corredores, quando se relacionam com o pessoal auxiliar, quando estão na Biblioteca. Esses são professores em todos os espaços porque em todos eles sabem interagir positivamente com os alunos e são exemplo de posturas correctas. Não precisam de falar muito! Basta-lhes actuar com coerência, firmeza, dignidade e interesse. E estes é que têm autoridade. Quem lhes deu essa autoridade?

Eles próprios.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Três Cantos...no COLISEU do Porto


Três Cantos: mais duas oportunidades para ver José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto -

Concerto ímpar! Delicioso!...Grandes vozes, poderosas, sonantes, tocantes e provocantes.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Viagens na minha terra" sem Garrett, com Cleto...


- Mãe, sabes quem vi no autocarro?
- Não!
- O Joel!
- O Joel? Em que autocarro?
- Em muitos!
- Como?!


Pois o Joel, meu priminho, "passeia-se" pelos autocarros do Porto. A razão é a publicidade a um programa televisivo, por ele conduzido. Recomendo-o...
Sobre isso escreveu o próprio:
"5ª feira, 29 de Outubro, 23 horas - 3º episódio de "Viagens na Minha Terra". A linha de eléctrico nº1, de Massarelos a S. João da Foz. Uma viagem até às origens do Renascimento em Portugal. Sim! Porque o farol de S.Miguel-o-Anjo e a igreja de S. João da Foz (no interior do Forte da Foz) são as mais antigas co...nstruções renascentistas do país. E pelo meio do episódio ainda há referências às centrais termo-eléctricas da Arrábida e Massarelos, ao edifício modernista dos "Frigoríficos de Peixe" e à Ponte da Arrábida. Repete no sábado às 16h e no domingo às 20h. No canal 13 da TV Cabo."


domingo, 18 de outubro de 2009

Uma tristeza de morte

A tristeza faz parte da nossa vida, como muitos outros sentimentos. Direi que temos uma salada de frutas de sentimentos, e esses sabores misturados, de tão diferentes que são, tornam-nos humanos com algum sentido e equilíbrio. Mas, ter uma tristeza residente será igual a ter uma única fruta que vai azedando. E, à nossa volta quanto azedume sentimos! São sobretudo as pessoas mais vividas que guardam uma amargura que as vai corroendo de uma tristeza que se torna dor e depressão. Dirão que a vida lhes foi difícil, repleta de maus momentos, de azar, de maldade. Possivelmente até foi.

Hoje os meus pensamentos andam perdidos em torno de uma tristeza que poderá ser genética, química…

Tenho uma dificuldade enorme em ver pessoas tristes e deprimidas. Mas ver uma criança triste é desolador! É quase como não acreditar no futuro.

Distimia é uma doença do humor, uma depressão crónica em que a pessoa em causa apresenta baixa ou nenhuma auto-estima; sente-se desmotivada; tem falta de esperança, é negativista e por vezes tem pensamentos suicidas e pode apresentar comportamento agressivo ou irritantemente passivo.

Conheci uma menina linda, com esta doença. O seu rosto transparece uma tristeza enorme, onde não há brilho no olhar nem sorrisos nos lábios. Uma timidez imensa cobre-a de insegurança, limitando-lhe as palavras, tornando-a aparentemente apática.

Como compreender isso numa adolescente bonita, de corpo saudável? È terrível, creiam-no!

Que um velho desanime e perca a alegria, ainda consigo compreender mas, uma criança triste, traz a morte no olhar, choca de tão incompreensível.

Em momentos assim, agradeço a Deus as gargalhadas sonantes da minha filha, os sorrisos rasgados do meu filho e o meu bem estar. Tenho uma alegria estruturada dentro de mim que não quero nunca perder. Mesmo que tudo seja triste, que o desânimo me invada, continuo a sonhar, a acreditar, a rir e a brincar.

sábado, 10 de outubro de 2009

Votar no Porto

«O Porto é o lugar onde para mim começam as maravilhas e todas as angústias
Sophia de Mello Breyner


Amanhã votarei em consciência numa esperança para o meu Porto. Uma esperança com rosto feminino!

sábado, 5 de setembro de 2009

"Há votar e botar, há ir e ficar"

Quem vê televisão, regularmente, tem a opção de assistir a entrevistas e debates em que os candidatos às próximas eleições legislativas, apresentam e defendem ideias, ideais, propósitos e também despropósitos. Sente-se já este momento democrático em que todos somos chamados a participar e, que privilégio!

Mas, ver esses debates não chega.

Embora portuense sei distinguir bem a diferença entre Votar e Botar. Ora se botar é um verbo utilizado mais popularmente para o acto de deitar, colocar, votar é um acto de escolha consciente. Eu temo que muitos botem o voto e não votem de verdade. E, essa atitude irreflectida levará a uma consequência socialmente sentida por todos. Todos, mesmo aqueles que vivem a democracia de forma amorfa, sem qualquer tipo de preocupação que não seja o viver a sua vidinha egoísta e falar, falar…Qual votar qual quê!

Após a época balnear em que durante muitos anos se ouvia “Há mar e mar, há ir e voltar”, veio a época eleitoral em que “Há votar e botar, há ir e ficar”.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Place du Tertre

Há locais emblemáticos...La Place du Tertre, em Paris é daqueles locais com história, tradição e pitoresco à mistura. Os anos vão passando e a Praça vai sendo visitada
de geração em
geração, continuando preenchida de encanto, telas, tintas, lápis, cavaletes, pintores, retratistas, modelos...
Tinha 12 anos quando nesta mesma Praça, obtive o meu retrato desenhado...34 anos depois eis-me de novo no mesmo lugar acompanhada da minha filha...agora é a sua vez...

domingo, 9 de agosto de 2009

Raul...ao luar

Há pessoas públicas que enchem tão de perto as nossas vivências que quase as achamos familiares.
E construímos uma intimidade unidireccional...Sabemos tanto delas!...desenvolvemos um afecto virtual mas real. Pois, Raúl Solnado é uma dessas figuras que recolhemos na nossa intimidade doméstica. Conheci-o pequenina, com 5/6 anos...através da janela que se abria na sala de estar da minha casa, para o mundo a preto e branco da RTP. Tive,também, o grande prazer de o ver representar ao vivo...
[a+raul+solnado+2.jpg]
(retirado de um Blog de Almada)
A notícia da sua morte causou uma enorme angustia em todos nós...
Que mais dizer?...Viveu e fez-nos viver momentos de alegria. O seu sorriso invulgar, de menino com olhos pequeninos achinesados é enternecedor. Partiu...fica o luaR com o seu nome e o seu encanto!

domingo, 26 de julho de 2009

Uf...Férias!

On part demain matin ...Nous allons à Paris!

sábado, 18 de julho de 2009

Virtudes...
Pois...
Este sábado foi uma virtude...
Há muito que não deambulava a pé pelo centro da minha cidade - o Porto. Sempre que a percorro fico desanimada. Em vez de beleza e encanto tenho visões feias...mesmo tristes!
Então para não encarar a realidade confesso que deixei de percorrer o meu Porto desabitado.
Em tempo de nevoeiros, de chuva miudinha, o cinzentismo parece encobrir as más visões. Mas, a claridade de verão desnuda a cidade, realça tudo!
Mas hoje, desafiram-me...
Conheci um recanto bonito e bem cuidado. Nem sei se o divulgue, se o guarde só para mim. Quando o descobrirem vai ser invadido de lixo e grafittis. O Porto está habitado de marginais e dasabitado de gente.
Esse recanto simpático é o Jardim das Virtudes...





Jardim das Virtudes

Morada: Calçada das Virtudes (por detrás do Palácio da Justiça). Se outras não tivesse, este jardim tem a grande virtude de se situar numa zona nobre da cidade: o Centro Histórico.
Localizado numa encosta, oferece uma vista ímpar para o Douro.
(do site da C.M.Porto)


segunda-feira, 13 de julho de 2009

Música fora de Casa

Vindo o Verão, a Casa da Música (no Porto) espraia-se pelo espaço exterior. Parece-se, com as devidas diferenças, com alguns cafés, que passam a ter esplanadas!
Pois no sábado, estive por lá a saborear Amélia Muge.

"A sua música junta tradição e inovação. Partindo da música tradicional portuguesa e africana para alcançar uma grande modernidade. Recorrendo tanto a instrumentos tradicionais como a "novas tecnologias" nessa busca de inovação. A música da Amélia Muge destaca-se também pela beleza das letras das suas canções. Ela tem musicado tanto poemas da sua própria autoria como poemas de vários poetas da língua portuguesa, onde se destacam Fernando Pessoa e Grabato Dias, sem esquecer os poemas de origem tradicional." (Wikipédia)

A segunda parte do espectáculo foi servida em brasileiro...

Siba e Fuloresta

Vindos de Pernambuco, este grupo com o nome sugestivo de FULORESTA , cativou pela forma agradavel com que Siba, mestre da nova geração de ciranda (dança e música de Pernambuco) e maracatu (ritmo musical afro-brasileiro)cantou e versejou apresentando uma linguagem inovadora e pessoal.

Nascido na cidade cosmopolita do Recife, cresceu entre a cidade e o interior. Após viver em São Paulo sete anos, voltou para Pernambuco em 2002 para iniciar este grupo, formado por músicos tradicionais de Nazaré da Mata.

Hum! que música curiosa!...Não sei porquê, lembrei-me do cantar ao desafio.

Há noites assim, de uma quentura de alma, que só eu sei!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Poema para uma despedida ...

Tive que me despedir de uma equipa...venho aqui partilhar essa despedida...


Impressão digital

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!


António Gedeão in "Movimento Perpétuo", 1956

Ver sozinho, é empobrecedor. Partindo dos múltiplos olhares de cada um, podemos ver muito mais e mais longe. Basta termos no olhar, essa vontade de construir e o positivismo para ver.

Apesar de todos os problemas, do ano complicado que vivemos, foi, para mim uma ano de novas visões.

Eu vou mas que fique uma equipa de olhares cruzados num objectivo comum.