sábado, 30 de março de 2013

O Respeito e os Espaços...


“Desculpe…para entrar tem que se descalçar” disse um jovem muçulmano ao olhar-me. Ia apenas em busca de informações e mesmo assim, para entrar tinha que cumprir o ritual e colocar os meus botins nas prateleiras alvas da entrada, onde alguns pares de sapatos se alinhavam.

Amadu
Obedecendo á sua exortação, descalça, logo o jovem me atendeu com um sorriso simpático e educado. Foi então que conheci o Imã Amadu Camará. Uma aproximação cautelosa e de muita desconfiança…alguns chamar-lhe-ão um termo mais simpático – prudência. Do negro do rosto o negro do olhar, forte, penetrante mas impenetrável. Olhou-me como se me radiografasse mantendo um ar severo. Sem duvida que a sua pose contrastava por completo com o jovem que me tinha recebido. Recolhidas as informações com a criançada  a aproximar-se , subi as escadas para sair. O jovem muçulmano angolano teve a gentileza de me dizer enquanto me via calçar “Sabe, esta prática corresponde a uma passagem bíblica em que Deus diz a Moisés para se descalçar porque o lugar que ele pisava era sagrado. Este é também um lugar destinado a Deus, por isso sagrado. Os sapatos que percorrem as ruas têm todo o tipo de impurezas, mesmo excremento de animal…por isso é importante procedermos assim…!”
Acenei-lhe positivamente e retribui-lhe um sorriso amável agradecendo a atenção.

segunda-feira, 25 de março de 2013

50 pessoas...MARGARIDA CRESPO



Conheci a Margarida há uma eternidade…cerca de 35 anos! Cruzamo-nos no então Liceu Rainha Santa Isabel, no Porto. Nessa altura vivíamos a turbulência da idade, das escolhas, do amor, das alegrias, das ideias em construção e das muitas interrogações sobre o futuro. Sem saber exactamente como, tornamo-nos muito amigas e as viagens de autocarro da escola para casa envolvidas nos nossos diálogos eram demasiado curtas para tanta partilha e confidência…e ficávamos na rua durante horas a falar, esquecendo a fome e as mães preocupadas, numa altura que não havia telemóveis.
A semelhança dos valores de vida depressa nos aproximou, sendo nós temperamentalmente diferentes. A Margarida sempre aventureira e decidida contrastava comigo bastante tímida e receosa. Mas a amizade nasceu assim e com muita alegria! Afirmou-se com um grande envolvimento, mesmo familiar! E como eu recordo a sua casa antiga na Circunvalação onde vivia com a sua grande e simpática família. Uma casa cheia de rostos bonitos e alegres e de imensa hospitalidade. Eu, filha única, ficava fascinada com esta grande família tão unida. Adorei conhece-los e conviver com eles. Também os meus pais guardaram um carinho especial pela “Guida”. Fruto das circunstâncias da vida, tivemos que nos separar. Uma separação que se iniciou em território português, primeiro até Coimbra e se alargou até Macau. Mas, sempre tivemos notícias uma da outra…do curso…do casamento…do nascimento dos filhos…das escolhas…Ficamos guardadas com ternura na memória uma da outra…a memória dos afectos e do que há de melhor na vida!A 21 de Março/2013 tive o privilégio de a felicitar pelos seus 50 anos de vida, através de uma surpresa de uma amiga…foi de facto emocionante. Fi-lo  com todo o sentir, enviando-lhe um enorme abraço, com a mesma amizade sincera de sempre, que o tempo e a distância não conseguem abalar.

50 anos...50 pessoas...


Iniciei em 30 de Julho de 2012 o percurso dos meus 50 anos de vida. Se atentar no número parece inacreditável! Ainda sinto muita ingenuidade e meninice e, olhar-me com meio século não parece real. Mas é com satisfação que alcanço esta idade. Todos nós traçamos sonhos e imaginamos cenários das várias etapas da vida. Desse conjunto algo se concretizou e também algo ruiu …alguns sonhos ainda por cumprir. Mas de toda esta vida percorrida muitas foram as experiências e nos vários contextos de vida muitos os relacionamentos. E, sem duvida o mais marcante foram os relacionamentos. Através deles aprendi a viver no que isso tem de variado, a compreender, a empatizar, a trocar experiências, a aceitar, a lutar, a ter prazer, alegria, paciência, também a sofrer, viver tristeza, decepção e amor. Sou o que sou, também fruto do que percorri. 50 anos vividos…quais as pessoas que mais me marcaram? Vou escolher 50, as mais importantes e vou reflectir no porquê dessa escolha.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Declaração




A partir de hoje...
Tenho uma irmã que é borboleta. Não 
nasceu de pai e mãe, nasceu da metamorfose  da amizade.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Ano Novo


Desde que nasci que tive 48 passagens de ano no Porto e em família…Mas há sempre uma primeira vez para tudo! Este ano decidi que a mudança do meu terrível ano de 2012 para o meu esperançoso 2013 seria passada bem longe…a Tunísia foi destino, os desconhecidos, os companheiros de “Reveillon”. Fiquei com a ideia de que os muçulmanos na sua generalidade não dão a importância que nós, Europeus, designados de cristãos, damos à passagem de ano...
O Hotel muito bonito e de grandes dimensões, marcadamente de verão, estava a abarrotar, para meu espanto! Sendo de facto um empreendimento agradável e com muitos espaços de convivo, podia estar construído num outro qualquer país,  as suas características pouco tinham de árabes, africanas e especificamente Tunisinas. Mas era inegavelmente agradável. Cruzando-me com a população do Hotel, encontrava sobretudo alemães já com alguma idade, raros espanhóis 
e bastantes famílias muçulmanas. Durante o dia era vulgar encontrar os alemães sobretudo no Bar ou junto à piscina exterior a tentar usufruir das nesgas de sol…como se estivessem em pleno verão debaixo de um calor tórrido. Acho que alguns deviam querer candidatar-se a alguma pneumonia, dada a sua exposição exagerada…sobretudo ao vento e ao frio!
…31 de Dezembro à noite…todos, segundo seus gostos e os seus conceitos de Jantar de Gala de fim de ano, se congregaram na sala de estar do Bar. As alemãs com grandes decotes e exageradamente maquilhadas e as tunisinas bem tapadinhas e discretamente arranjadas! Havia por lá uma portuguesa discreta que ficava a meio termo do descrito!...Pouco a pouco começo a sentir que estou num país diferente. A música, as danças, começam a dar ambiência. No entanto havia um intercalar entre as danças árabes e as valsas ou  outro tipo de balada europeia. Ah…e os árabes dançam muito bem e de forma entusiasta as suas próprias danças e ritmos. Vibram!...em simultâneo era servido o Jantar que tinha um toque marcadamente francês, servido nas mesas bem decoradas e à média luz das velas. Enquanto os europeus comiam com todos os talheres, para os Tunisinos sobravam já que as mãos são bastante utilizadas. Era de notar contudo, uma particularidade interessante…não havia qualquer bebida com álcool. Perto da meia noite chegou um momento americanizado…foram distribuídos chapeuzinhos , mascarilhas e gaitas. Nunca achei grande graça a tais adornos…ali parecia completamente desfasado. E dos meus companheiros de mesa curiosamente Marwan, um jovem tunisino apenas colocou para a fotografia…à meia noite a música soou mais alto e todos se cumprimentaram com agrado por tal chegada. Mas…nada de champanhe!!!! Tudo de um entusiasmo muito sóbrio! Ah…mas no bar lá estavam os grupos de alemães a brindar!...eu fiz um brinde interior…um brinde a um novo ano mesmo a sério!...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Natal


Natal…da grande generalidade cultural e religiosa do termo até ao particularismo da vivência familiar…surge a essência da definição para cada um de nós. E a definição pode sentir redefenições!
Nessa minha primeira definição, o Natal nascia cada ano circundado por uma magia muito própria . Por isso, houve um tempo em que para mim as noites de Natal em família eram universalmente mágicas e felizes. O bem estar e a alegria eram enormes.
Depois houve um tempo em que descobri que podiam haver Natais tristes em muitas casas mas o meu era fantástico. Houve um tempo assim…Agora é tempo de nem sequer ter Natal, porque qual paradoxo, esse Natal morreu. O outro que agora vou viver está nu de encanto, sentimento, cor e magia…

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Família


Família…tu tens?...eu perdi-a!
Cada qual tem o seu sonho de vida, de felicidade…
Nesse meu caminho da felicidade plena, estava, sem duvida, incluída a construção de uma família.
Enquanto criança, e criança feliz, fui rodeada pelos mimos familiares e as melhores aprendizagens, experiências e recordações, foram junto dos pais, dos avós…dos tios…essas partilhas em ambiente desinibido amistoso e normal. Uma família pequenina mas feliz! Uma família onde cabia todo o tipo de escolaridade, de personalidade, de pensamento, de diálogo.
Quando chegou a minha vez de ter o meu lar, com companheiro e filhos… projetei esse bem estar que tanto me estruturou como pessoa. E a família que construí(mos) com cumplicidade, parceria e amor, tinha por base bons princípios de relacionamento, de compreensão e muito afeto. E ainda houve tempo para os netos saborearem o lar dos avós!...Entretanto o inesperado aconteceu e o meu sogro e a minha mãe morreram!...Mas não foi por isso que a família terminou!...isso são partidas impostas, mas naturais, com as quais a  família, apoiando-se, tem que viver.
Mas por mais que queiramos, a família e o nosso conceito nem sempre segue o rumo que sonhamos…e estranhamente a família nuclear quebra-se.E sente-se um enorme falhanço!
 Os laços de união que podiam continuar , perdem-se…e tudo parece errado. E desta família,  o vinculo do individualismo (egoísmo) tomou posse de todo o espaço…não mais a partilha existe…nem a compreensão! O cartão de cidadão apontará sempre a filiação mas é frio e impessoal…a família e os seus relacionamentos são muito mais do que árvores genealógicas e registos burocráticos!
Hoje não tenho família no conceito de caminhada, união, abertura, partilha e mesmo AMOR.
Não tive a sorte de ter irmãos…tenho pai…não tenho mãe…sogros falecidos...sem companheiro…cunhados afastados...filhos ausentes (mesmo sem ser por opção)…netos por chegar…vida solitária...Isto é família? Poderão ser pessoas perdidas que têm semelhanças genéticas e ligações sanguíneas...talvez algum amor! 
E eu que teorizei sempre sobre o amor conjugal como aquele que percorreria toda a vida como um fio condutor estruturante e que ficaria para além do tempo por se tratar de um amor escolhido, cuidado e aconchegante!
Vivi tantos anos, até lutei, mas perdi o sonho!...é triste!
E mesmo que os netos venham…não tenho uma família para os receber…e esse era outro sonho! Oxalá a dos  companheiros dos meus filhos tenham casais de avós felizes e unidos para lhes dar esse amor familiar, algo envolvente que tive o privilégio de viver e que é uma alegria para os avós e uma aprendizagem humanista de real afeto para os pequenitos! A vida é muito mais do que prazeres imediatos, conhecimentos, vontades próprias e caprichos pessoais! O saboroso da vida é o lastro que nos é dado pelo afeto e sobretudo em família.
Tivesse eu tempo e sonho, voltava a construir uma nova família! Só assim a vida tem sentido!
Família…tu tens?...que sorte! Faz por ela o que poderes!...Fico com inveja!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Leituras...


…Pelas ruas e estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros gnomos e fadas
Num halo resplandecente!

Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D. Quixote vê Gigantes…

Todas as visões são leituras e todas as leituras são marcadamente  culturais e pessoais e direi mesmo, circunstanciais. Cada vez  estou mais certa disto!
Nasci no Porto há muito! Vivi o Porto como cidade natal, aí cresci, me desenvolvi tendo dele uma perceção muito intimista. Uma visão de portuense, cristã, com uma forte herança familiar e simultaneamente sentindo-me cidadã do mundo. A minha visão é um misto de vivido, de herdado, de sentido e fruído pelo meu próprio percurso. Mas tendo a capacidade de me deslumbrar e comover, aprecio neste meu Porto as fachadas antigas mas sinto-o frio, triste e descuidado. E para que esse feio envelhecimento não me choque, deixei de observar tanto…percorro-o e cruzo-me com uma imensidão de pessoas sem atentar muito na sua origem. Vivo no Porto, desloco-me sem ter muito consciência disso. Mas, detalhes banais podem ganhar repentinamente outra dimensão quando partilhamos a cidade com alguém com um outro olhar. Surge um degustar diferente da cidade! E o que para uma cidadã europeia parece insignificante e banal, passa a ter outra leitura num olhar árabe vindo do deserto norte africano…E do meio da multidão anónima brotam cumprimentos árabes e vénias. E cruzam-se sorrisos com saudações francesas. Descobrimos pela primeira vez lojas que existiam há séculos! E a beleza das gaivotas é enaltecida. E procuram-se mesquitas no meio dos edifícios. Há um deslumbramento pela condução organizada e fotografam-se todas as fontes como dádivas de Deus. Observam-se as árvores ao pormenor e descobre-se que as bolotas podem ser cozinhadas em África mas aqui, não são comestíveis. E há o escândalo pela publicidade da TEZENIS a uma lingerie exposta por uma jovem semi despida, em mais de 20 expositores! E bebe-se muito chá! Nos restaurantes uma pergunta estranha quanto ao prato de carne…”Foi através de abate ritual islâmico?...não?”. As poucas camélias chamam a atenção.Nas compras em vão se discutiam preços! E a corrente do rio Douro a abraçar o mar torna-se ainda mais fascinante. As pontes magnificas! E colocar algo no lixo…para-se a perguntar qual o contentor e o porquê de tantas cores. E descobre-se que há uma enormidade de lojas com produtos típicos para turistas mas, muitos chineses e paquistaneses à mistura. E é incompreensível a estatuária no interior das Igrejas...santos? o que é isso? Só há um Deus!Compra-se uma toalha vermelha com bordados de Natal, sem saber o que é o Natal, mas a toalha é bonita e isso basta! Sente-se o frio outonal e dá-se valor à chuva mesmo estando de sandálias!

…Vê moinhos? São moinhos!
  Vê gigantes? São gigantes!

(parte do poema de António Gedeão - Impressão Digital; Foto: Said na Boavista-Porto)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O valor das coisas

Um presente caríssimo contendo algo ultra moderno que vem em todos os bons catálogos. Bonito, extraordinário, provocador de invejas a gente mesquinha, fútil, gente regida pelos espartilhos da imagem social de sucesso e moda. Quem ofereceu, muitas vezes, perdeu pouco mais de meia hora do seu dia e a prenda ficou "arrumada" com uma choruda importância. Que presente tão vistoso! Muitos pensarão que é sinónimo de muita estima, consideração e eventual amor...Aprendi que não há relação directa! 
E eu sempre preferi os presentes simples e personalizados. Alguns custaram a maior preciosidade - o tempo, o entusiasmo,o afecto e pouco dinheiro.Esses são os mais belos e valiosos!...únicos e sem marca. E estranhamente não despertam inveja!...
Há muito que não recebia um presente assim!...

sábado, 22 de setembro de 2012

deserto


Todos nós temos em mente uma série de locais a que recorremos quando pretendemos algo especifico como a diversão, o descanso, o cultuar, o aprender, obter auxilio…e facilmente um parque, um cinema, um hotel, uma Igreja, uma clínica, serão alguns desses espaços. Em determinadas ocasiões programamos momentos mais alargados e viajamos, visitando museus e povoações aprazíveis…Mas estou em crer que raramente, nas múltiplas circunstâncias, alguém aponte o deserto como um lugar de eleição.
O deserto é sinónimo de algo triste, só, cheio do vazio! Onde nem podemos comunicar com o mundo! E o mundo do deserto é simples... é um lugar árido e de extremos, tornando-se muito quente durante o dia e muito frio pela noite.
Mas no deserto vive gente! E o povo que lá vive aprende com o próprio deserto. Aprende uma sobrevivência diária e uma dependência natural do cosmos…será? E estranhamente quem lá vive diz que o deserto é belo..E o que poderá tornar belo o deserto? Já dizia o Principezinho “O que torna belo o deserto é  que ele esconde um poço nalgum lugar…”     
E eu, que ainda não visitei um deserto, sou portadora dos pensamentos de alguém que por lá vive e que consegue ouvir nesse silêncio o batimento do seu próprio coração.
E sentando-se numa duna, poderá não ver nada, apenas a imensidão…e poderá sentir sempre o infinito do céu junto ao infinito do deserto…E aí se descobre a cor do mundo, a cor mais bonita… o azul! E nesse azul escuro da noite há o deslumbramento das estrelas…e quase todas são visíveis!!!e há tempo para as apreciar sem haver relógios a pressionar…o melhor sabor do deserto talvez seja o do leite, e o que melhor aquece é o calor da fogueira…e um dos melhores prazeres será o andar descalço…e a melodia mais terna a do balir das pequenas cabras! A melhor e a mais bela  descoberta, a da água!
E a simplicidade desta vida natural torna tudo mais vivido, mais saboreado, mais valorizado…mais comunitário e solidário. E talvez faça sentido no meio de tudo isto pensar que “o essencial é invisível aos olhos”.
Por isso quando for ao deserto, vou de coração humilde, sem a pretensão da civilização.  levo comigo as últimas palavras de Antoine saint éxupery e a última imagem do livro Principezinho:
“…Olhem atentamente esta paisagem de modo a terem a certeza de a reconhecer, se viajarem um dia em África no deserto…E se vos acontecer passarem lá suplico-vos não se apressem esperem um pouco sob a estrela! Então se uma criança for ter convosco, se ela rir, se tiver cabelos dourados, se não responder quando lhe fazem perguntas, adivinharão de quem se trata. Então sejam amáveis! Não me deixem assim tão triste: escrevam-me depressa  dizendo que ele voltou…”
Hum…acredito poder encontrá-lo! A ele, a mim e a muito mais mundo!
  

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Incêndio em Caxarias - 2 Set.2012

O fumo esvoaçava como que saído de uma chaminé fabril, ondulante, castanho, espraiando-se pelo céu e cobrindo o sol da tarde. O sol...esse continuou a brilhar. Não chorou lamentando a morte do arvoredo, não tossiu com o fumo, não fugiu de medo! ficou imóvel onde estava e tornou-se redondamente vermelho, nítido e belo. Há momentos assim, em que no meio do mal há uma beleza a tocar o nosso olhar, a deslumbrar o nosso espirito.

Marrakech...


Ah aquela praça em Marrakech!...
Há locais que aumentam as pulsações, abrindo-nos sorrisos no rosto e no coração. Na praça Djema El-Fna fui abraçada pela mística ambiente. Um abraço de uma brutal sedução sensitiva. Um caos que deliciava todos os sentidos e provocava uma pulsação que constantemente me percorria. E dos sorrisos brotaram gargalhadas como nascidas dessa felicidade envolvente e desse estado de bem-estar. Toda eu vibrava! E isso do conceito europeu de bem -estar  passar por ser confortável, organizado e limpo, não me pareceu ser verídico para mim. E senti-me imensamente feliz ali! O ambiente tinha-se derramado na minha alma! E emocionei-me naquele escuro contrastante da noite. porque a noite nesta praça era multicolor. A noite tornava tudo mais belo e mágico. A noite era o cenário de todo aquele mundo...qual Babel! E por momentos eu fui parte desse mundo e uma peça também colorida.E aí respirei uma mistura de odores em simultâneo, sentindo o quente da noite, do calor humano, das mãos que me empurravam e daquelas que me queriam vender.Ouvi a mesclagem sonora de ritmos e melodias como de uma música estonteante se tratasse. E do linguajar incompreensivel que me cercava, surgiam as tentativas de comunicação. E eu estava ali para sentir e comunicar sem restrições. E o encanto da lingua francesa abriu-me portas para o mundo árabe e quanto prazer me permitiu!
Vou guardar para sempre, estas imagens, estes cheiros, estes sons, esses paladares ...esse sentir pleno.Marrakech foi uma uma enorme experiência sensorial, uma abertura de mundo.
Tenho que criar uma praça Djema El -Fna na minha vida, onde possa mesclar tudo, encontrar a magia e numa extrema intensidade, viver o bem -estar e recriar uma nova felicidade em meu ser.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tristeza e medo...

Há muitas formas de viver as tristezas, os desgostos e tentar amenizá-los. Hoje a partida da velhinha Casimira, de quem guardo com ternura muitas expressões e ditados populares, fez-me recordar um poema de MIA COUTO. 


Medo
Quererei tudo
depois da morte.

Até lá,
quero apenas ressuscitar. 
Em cada dia,
ressurgir dos mortíferos desfechos.

Lá vem o poeta, dizem.
E abrem alas, receosos.

Não me importa:
de vivo não quero memória.

Medo tenho
é de ser enterrado sem história.       

2006

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

SORRISOS


Permanentemente grávida de sorrisos
Dou-os à luz em cada dia
Uns doces...outros tristes
partos do quotidiano
Quanta alegria e quanta dor
Para nascerem sorrisos de mim

sábado, 7 de maio de 2011

Dia das Mães


Desde muito pequena que me habituei a participar, no segundo domingo de Maio, numa cerimónia dedicada às Mães, que tinha (e tem) lugar na Igreja Protestante na qual a minha família se congregava. Era uma homenagem comovente em que as crianças participavam activamente. Desde a poesia, música e mímica tudo contribuía para enaltecer a figura materna.

O meu pai de flor branca na lapela.

Eu de flor vermelha na mão, bem juntinho da minha mãe.

Fui crescendo e, a dada altura, reparei que havia um outro dia da Mãe, mais celebrado entre Católicos e a sociedade em geral. Questionei-me, porquê dois dias ?…então procurei entender a razão destas celebrações separadas à mesma figura feminina e no mesmo mês de Maio.

Descobri que a ideia de instituir tal dia, partiu de Anna Jarvis. Anna M. Jarvis nasceu no dia 1 de Maio de 1864, em Webster, West Virginia, nos Estados Unidos.

Em 1905, quando a sua mãe morreu, chamou a atenção na igreja de Grafton para a importância de criar um dia especialmente dedicado a todas as mães. Três anos depois, a 10 de Maio de 1908, foi celebrado o primeiro Dia das Mães, na igreja Metodista em Grafton, West Virginia, onde ainda existe uma placa comemorativa com a seguinte inscrição: «Igreja Metodista Episcopal de Andrews - Igreja Mãe do “Dia das Mães”

A 10 de Maio de 1913, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma resolução, estabelecendo que o segundo domingo de Maio fosse considerado Dia das Mães. E, o Decreto incluindo este dia no calendário federal foi assinado pelo Presidente Woodrow Wilson, em Maio de 1914, com a presença de Anna Jarvis, do Secretário de Estado William Jennings Bryan e de alguns Senadores.

A ideia de usar duas flores (originalmente cravos) de cores diferentes, conforme ainda fosse viva ou não a mãe de quem a usava, foi também da mesma senhora.

Em poucos anos esta data foi aceite pela maioria das comunidades cristãs (de influência Protestante) e, com pequenas modificações, é comemorada até hoje. Seria objectivo deste dia consciencializarmo-nos sobre a importância das mães cristãs. Através de palavras, presentes, actos de afecto e de todas as maneiras possíveis deveríamos proporcionar-lhes bem estar e alegria. Celebrar o dia, também, em memória de todas as mães que partiram.

Em Portugal, até há alguns anos atrás, o dia da mãe era comemorado a 8 de Dezembro, mas actualmente o Dia da Mãe é no primeiro Domingo de Maio, em homenagem a Maria, Mãe de Cristo.

Amanhã é Dia das Mães…e eu de flor branca na mão!

domingo, 1 de maio de 2011

Esperança ?

Muito interessante esta forma de ver a esperança...

“Hoje não há razões para otimismo. Hoje só é possível ter esperança. Esperança é o oposto do otimismo. “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração.” Camus sabia o que era esperança. Suas palavras: “E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível…” Otimismo é alegria “por causa de”: coisa humana, natural. Esperança é alegria “a despeito de”: coisa divina. O otimismo tem suas raízes no tempo. A esperança tem suas raízes na eternidade. O otimismo se alimenta de grandes coisas. Sem elas, ele morre. A esperança se alimenta de pequenas coisas. Nas pequenas coisas ela floresce…”
Rubem Alves

quarta-feira, 6 de abril de 2011

"FELICIDADE REALISTA" ( Mário Quintana )

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

domingo, 6 de março de 2011

Acordo Ortográfico


Segundo a aprovação do Governo, a aplicação do acordo ortográfico da língua portuguesa no sistema educativo será já no próximo ano lectivo 2011/2012.

Mas, nota-se entre a maioria dos professores uma alergia a essa aplicação. Essa relutância não se sente unicamente no espaço escolar, muitos cidadãos referem-se a isso com um enorme desconforto e até aborrecimento.

Para ser sincera tive que percorrer um caminho de consciencialização para esta mudança. Eu, que sempre tentei ser fiel ao meu português de Portugal. Fiz sempre um enorme esforço para não me deixar contaminar por brasileirismos, apanhei um susto quando pensei que tinha que me render a um português miscigenado.

Mas uma língua viva, cruza-se, evolui e renasce. O acordo ortográfico é o acto fúnebre de muitas das letras que ficaram mortas nas palavras que falamos. E isso é natural. Se assim não fosse ainda escrevíamos farmácia com “ph” entre muitas outras palavras. Então se esta escrita viva assim cresceu e se entrelaçou com outros povos que falam esta nossa língua, porque não acordarmos num português partilhado?

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Valor

Há acontecimentos pontuais que num curto espaço de tempo, valem uma preciosidade.

Bem sei que o conceito de valor pode ser discutido e discordado. Até podemos analisar o que será um bom investimento. A falar assim, até parece que percebo muito de Finanças e vou divagar sobre conceitos económicos ! Para dissipar duvidas passo a explicar.

Fui docente numa pequena escola durante 4 anos. Deixei-a, por questões profissionais, sem a retirar do coração. Pois na sexta-feira passada ao entrar nessa escola, no intervalo do recreio das crianças, senti-me qual Jesus Cristo na entrada Triunfal em Jerusalém. À medida que as crianças me olhavam e se certificavam de que era eu mesma, corriam na minha direcção e fitavam-me como se estivessem perante uma obra de arte magnífica, com o encanto e um sorriso mais alegre do que se estivessem a receber uma enormidade de gomas coloridas. Depois davam-me abraços, puxavam-me para me dar beijos e os rostos eram de autêntica satisfação. Até os que não tinham sido meus alunos estavam contagiados de alegria.

-Mas tu não foste aluno da professora!

- Fui fui!... uma vez que professora Cristina faltou e foi substituída por ela!

Senti-me ENORME!

Há lá maior satisfação, maior reconhecimento, saudação mais genuína, do que esta!

Quando estive naquela escola dei-me, envolvi-me e estabeleci uma convivência saudável com os alunos. Toda esta recepção estava no registo da afectividade e não do conhecimento. Hum…será isto o resultado de um bom investimento? Caso não achem, eu dou-lhe um valor imenso!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Era uma vez...


Era uma vez uma coelhinha anã que passou de uma loja de animais para o quotidiano de um Jardim de Infância. Mas…como qualquer estória encantadora que se preze, teve que levar umas pinceladas de fantasia para nascer como uma verdadeira estória, a ser vivida por todas aquelas crianças.

O Senhor Tomás, desconhecido de todo o grupo, (apenas conhecido da imaginação!) dono de uma Quinta (que nem virtual!...), escreveu para a escola uma carta onde perguntava se os meninos do Jardim de Infância gostariam de cuidar de uma coelhinha pequenina que tinha perdido a mãe. O entusiasmo foi colectivo e levou de imediato a uma resposta positiva e escrita, dirigida ao simpático e anónimo Sr. Tomás.

Os dias seguintes foram dedicados a pesquisas sobre alimentação de coelhos, cuidados a ter com eles, higiene e muito mais. Quando todo o grupo já se achava capaz de receber esse novo “colega”, a professora telefonou ao Sr. Tomás (cujo contacto vinha na carta) e combinou tudo.A alegria e o nervosismo dessa chegada tornou todos ansiosos durante aquela ultima semana de Abril.

O Sr. Tomás levantava-se muito cedo e à hora que passava à porta da escola ainda estava tudo fechado. A solução foi deixar a coelhinha no café da esquina e depois o Grupo ir lá buscá-la. Mas…no dia marcado, o tempo não estava de feição e teve que ser a professora a ir busca-la ao café.O Senhor Tomás, homem muito cuidadoso, mandou-a com uma gaiola engraçada, com comedouro, bebedouro, feno e comida adequada.

E foi assim, no carro da professora que a coelha a quem chamaram de BOLINHA chegou, a 30 de Abril de 2008.

A partir daquele dia o coração daquele pequenino animal andava sempre acelerado. Todos queriam pegar, afagar, alimentar…brincar com esta nova amiga peluda e macia.

Aconteceram as mais deliciosas peripécias! Desde ter que provar lanches infantis nada ao seu gosto, até ter que ouvir histórias para adormecer, ser obrigada a entrar numa casa de legos, andar no bolso da bata, ter trela para não fugir, passear no atrelado do tractor (de brincar), tomar banho, ter

uma coleira com guizo…Era uma super-coelhinha! E a criançada vibrava com a sua presença. Nos fins de semana era muito viajada! Cada fim de semana ía para uma casa diferente. Aprendeu a controlar o stress e em situações duvidosas que a assustassem em demasia, passou a dar umas ferradelas.

Assim foi crescendo e por lá conviveu durante um ano.

No final desse ano foi viver para uma quinta verdadeira.

Recebi a noticia que morreu no passado dia 16 de Fevereiro de 2011.

Era uma vez uma coelhinha anã que passou de uma quinta verdadeira para…sabe-se lá para onde!...ela ainda salta na minha imaginação.