sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Família


Família…tu tens?...eu perdi-a!
Cada qual tem o seu sonho de vida, de felicidade…
Nesse meu caminho da felicidade plena, estava, sem duvida, incluída a construção de uma família.
Enquanto criança, e criança feliz, fui rodeada pelos mimos familiares e as melhores aprendizagens, experiências e recordações, foram junto dos pais, dos avós…dos tios…essas partilhas em ambiente desinibido amistoso e normal. Uma família pequenina mas feliz! Uma família onde cabia todo o tipo de escolaridade, de personalidade, de pensamento, de diálogo.
Quando chegou a minha vez de ter o meu lar, com companheiro e filhos… projetei esse bem estar que tanto me estruturou como pessoa. E a família que construí(mos) com cumplicidade, parceria e amor, tinha por base bons princípios de relacionamento, de compreensão e muito afeto. E ainda houve tempo para os netos saborearem o lar dos avós!...Entretanto o inesperado aconteceu e o meu sogro e a minha mãe morreram!...Mas não foi por isso que a família terminou!...isso são partidas impostas, mas naturais, com as quais a  família, apoiando-se, tem que viver.
Mas por mais que queiramos, a família e o nosso conceito nem sempre segue o rumo que sonhamos…e estranhamente a família nuclear quebra-se.E sente-se um enorme falhanço!
 Os laços de união que podiam continuar , perdem-se…e tudo parece errado. E desta família,  o vinculo do individualismo (egoísmo) tomou posse de todo o espaço…não mais a partilha existe…nem a compreensão! O cartão de cidadão apontará sempre a filiação mas é frio e impessoal…a família e os seus relacionamentos são muito mais do que árvores genealógicas e registos burocráticos!
Hoje não tenho família no conceito de caminhada, união, abertura, partilha e mesmo AMOR.
Não tive a sorte de ter irmãos…tenho pai…não tenho mãe…sogros falecidos...sem companheiro…cunhados afastados...filhos ausentes (mesmo sem ser por opção)…netos por chegar…vida solitária...Isto é família? Poderão ser pessoas perdidas que têm semelhanças genéticas e ligações sanguíneas...talvez algum amor! 
E eu que teorizei sempre sobre o amor conjugal como aquele que percorreria toda a vida como um fio condutor estruturante e que ficaria para além do tempo por se tratar de um amor escolhido, cuidado e aconchegante!
Vivi tantos anos, até lutei, mas perdi o sonho!...é triste!
E mesmo que os netos venham…não tenho uma família para os receber…e esse era outro sonho! Oxalá a dos  companheiros dos meus filhos tenham casais de avós felizes e unidos para lhes dar esse amor familiar, algo envolvente que tive o privilégio de viver e que é uma alegria para os avós e uma aprendizagem humanista de real afeto para os pequenitos! A vida é muito mais do que prazeres imediatos, conhecimentos, vontades próprias e caprichos pessoais! O saboroso da vida é o lastro que nos é dado pelo afeto e sobretudo em família.
Tivesse eu tempo e sonho, voltava a construir uma nova família! Só assim a vida tem sentido!
Família…tu tens?...que sorte! Faz por ela o que poderes!...Fico com inveja!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Leituras...


…Pelas ruas e estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros gnomos e fadas
Num halo resplandecente!

Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D. Quixote vê Gigantes…

Todas as visões são leituras e todas as leituras são marcadamente  culturais e pessoais e direi mesmo, circunstanciais. Cada vez  estou mais certa disto!
Nasci no Porto há muito! Vivi o Porto como cidade natal, aí cresci, me desenvolvi tendo dele uma perceção muito intimista. Uma visão de portuense, cristã, com uma forte herança familiar e simultaneamente sentindo-me cidadã do mundo. A minha visão é um misto de vivido, de herdado, de sentido e fruído pelo meu próprio percurso. Mas tendo a capacidade de me deslumbrar e comover, aprecio neste meu Porto as fachadas antigas mas sinto-o frio, triste e descuidado. E para que esse feio envelhecimento não me choque, deixei de observar tanto…percorro-o e cruzo-me com uma imensidão de pessoas sem atentar muito na sua origem. Vivo no Porto, desloco-me sem ter muito consciência disso. Mas, detalhes banais podem ganhar repentinamente outra dimensão quando partilhamos a cidade com alguém com um outro olhar. Surge um degustar diferente da cidade! E o que para uma cidadã europeia parece insignificante e banal, passa a ter outra leitura num olhar árabe vindo do deserto norte africano…E do meio da multidão anónima brotam cumprimentos árabes e vénias. E cruzam-se sorrisos com saudações francesas. Descobrimos pela primeira vez lojas que existiam há séculos! E a beleza das gaivotas é enaltecida. E procuram-se mesquitas no meio dos edifícios. Há um deslumbramento pela condução organizada e fotografam-se todas as fontes como dádivas de Deus. Observam-se as árvores ao pormenor e descobre-se que as bolotas podem ser cozinhadas em África mas aqui, não são comestíveis. E há o escândalo pela publicidade da TEZENIS a uma lingerie exposta por uma jovem semi despida, em mais de 20 expositores! E bebe-se muito chá! Nos restaurantes uma pergunta estranha quanto ao prato de carne…”Foi através de abate ritual islâmico?...não?”. As poucas camélias chamam a atenção.Nas compras em vão se discutiam preços! E a corrente do rio Douro a abraçar o mar torna-se ainda mais fascinante. As pontes magnificas! E colocar algo no lixo…para-se a perguntar qual o contentor e o porquê de tantas cores. E descobre-se que há uma enormidade de lojas com produtos típicos para turistas mas, muitos chineses e paquistaneses à mistura. E é incompreensível a estatuária no interior das Igrejas...santos? o que é isso? Só há um Deus!Compra-se uma toalha vermelha com bordados de Natal, sem saber o que é o Natal, mas a toalha é bonita e isso basta! Sente-se o frio outonal e dá-se valor à chuva mesmo estando de sandálias!

…Vê moinhos? São moinhos!
  Vê gigantes? São gigantes!

(parte do poema de António Gedeão - Impressão Digital; Foto: Said na Boavista-Porto)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O valor das coisas

Um presente caríssimo contendo algo ultra moderno que vem em todos os bons catálogos. Bonito, extraordinário, provocador de invejas a gente mesquinha, fútil, gente regida pelos espartilhos da imagem social de sucesso e moda. Quem ofereceu, muitas vezes, perdeu pouco mais de meia hora do seu dia e a prenda ficou "arrumada" com uma choruda importância. Que presente tão vistoso! Muitos pensarão que é sinónimo de muita estima, consideração e eventual amor...Aprendi que não há relação directa! 
E eu sempre preferi os presentes simples e personalizados. Alguns custaram a maior preciosidade - o tempo, o entusiasmo,o afecto e pouco dinheiro.Esses são os mais belos e valiosos!...únicos e sem marca. E estranhamente não despertam inveja!...
Há muito que não recebia um presente assim!...

sábado, 22 de setembro de 2012

deserto


Todos nós temos em mente uma série de locais a que recorremos quando pretendemos algo especifico como a diversão, o descanso, o cultuar, o aprender, obter auxilio…e facilmente um parque, um cinema, um hotel, uma Igreja, uma clínica, serão alguns desses espaços. Em determinadas ocasiões programamos momentos mais alargados e viajamos, visitando museus e povoações aprazíveis…Mas estou em crer que raramente, nas múltiplas circunstâncias, alguém aponte o deserto como um lugar de eleição.
O deserto é sinónimo de algo triste, só, cheio do vazio! Onde nem podemos comunicar com o mundo! E o mundo do deserto é simples... é um lugar árido e de extremos, tornando-se muito quente durante o dia e muito frio pela noite.
Mas no deserto vive gente! E o povo que lá vive aprende com o próprio deserto. Aprende uma sobrevivência diária e uma dependência natural do cosmos…será? E estranhamente quem lá vive diz que o deserto é belo..E o que poderá tornar belo o deserto? Já dizia o Principezinho “O que torna belo o deserto é  que ele esconde um poço nalgum lugar…”     
E eu, que ainda não visitei um deserto, sou portadora dos pensamentos de alguém que por lá vive e que consegue ouvir nesse silêncio o batimento do seu próprio coração.
E sentando-se numa duna, poderá não ver nada, apenas a imensidão…e poderá sentir sempre o infinito do céu junto ao infinito do deserto…E aí se descobre a cor do mundo, a cor mais bonita… o azul! E nesse azul escuro da noite há o deslumbramento das estrelas…e quase todas são visíveis!!!e há tempo para as apreciar sem haver relógios a pressionar…o melhor sabor do deserto talvez seja o do leite, e o que melhor aquece é o calor da fogueira…e um dos melhores prazeres será o andar descalço…e a melodia mais terna a do balir das pequenas cabras! A melhor e a mais bela  descoberta, a da água!
E a simplicidade desta vida natural torna tudo mais vivido, mais saboreado, mais valorizado…mais comunitário e solidário. E talvez faça sentido no meio de tudo isto pensar que “o essencial é invisível aos olhos”.
Por isso quando for ao deserto, vou de coração humilde, sem a pretensão da civilização.  levo comigo as últimas palavras de Antoine saint éxupery e a última imagem do livro Principezinho:
“…Olhem atentamente esta paisagem de modo a terem a certeza de a reconhecer, se viajarem um dia em África no deserto…E se vos acontecer passarem lá suplico-vos não se apressem esperem um pouco sob a estrela! Então se uma criança for ter convosco, se ela rir, se tiver cabelos dourados, se não responder quando lhe fazem perguntas, adivinharão de quem se trata. Então sejam amáveis! Não me deixem assim tão triste: escrevam-me depressa  dizendo que ele voltou…”
Hum…acredito poder encontrá-lo! A ele, a mim e a muito mais mundo!
  

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Incêndio em Caxarias - 2 Set.2012

O fumo esvoaçava como que saído de uma chaminé fabril, ondulante, castanho, espraiando-se pelo céu e cobrindo o sol da tarde. O sol...esse continuou a brilhar. Não chorou lamentando a morte do arvoredo, não tossiu com o fumo, não fugiu de medo! ficou imóvel onde estava e tornou-se redondamente vermelho, nítido e belo. Há momentos assim, em que no meio do mal há uma beleza a tocar o nosso olhar, a deslumbrar o nosso espirito.

Marrakech...


Ah aquela praça em Marrakech!...
Há locais que aumentam as pulsações, abrindo-nos sorrisos no rosto e no coração. Na praça Djema El-Fna fui abraçada pela mística ambiente. Um abraço de uma brutal sedução sensitiva. Um caos que deliciava todos os sentidos e provocava uma pulsação que constantemente me percorria. E dos sorrisos brotaram gargalhadas como nascidas dessa felicidade envolvente e desse estado de bem-estar. Toda eu vibrava! E isso do conceito europeu de bem -estar  passar por ser confortável, organizado e limpo, não me pareceu ser verídico para mim. E senti-me imensamente feliz ali! O ambiente tinha-se derramado na minha alma! E emocionei-me naquele escuro contrastante da noite. porque a noite nesta praça era multicolor. A noite tornava tudo mais belo e mágico. A noite era o cenário de todo aquele mundo...qual Babel! E por momentos eu fui parte desse mundo e uma peça também colorida.E aí respirei uma mistura de odores em simultâneo, sentindo o quente da noite, do calor humano, das mãos que me empurravam e daquelas que me queriam vender.Ouvi a mesclagem sonora de ritmos e melodias como de uma música estonteante se tratasse. E do linguajar incompreensivel que me cercava, surgiam as tentativas de comunicação. E eu estava ali para sentir e comunicar sem restrições. E o encanto da lingua francesa abriu-me portas para o mundo árabe e quanto prazer me permitiu!
Vou guardar para sempre, estas imagens, estes cheiros, estes sons, esses paladares ...esse sentir pleno.Marrakech foi uma uma enorme experiência sensorial, uma abertura de mundo.
Tenho que criar uma praça Djema El -Fna na minha vida, onde possa mesclar tudo, encontrar a magia e numa extrema intensidade, viver o bem -estar e recriar uma nova felicidade em meu ser.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tristeza e medo...

Há muitas formas de viver as tristezas, os desgostos e tentar amenizá-los. Hoje a partida da velhinha Casimira, de quem guardo com ternura muitas expressões e ditados populares, fez-me recordar um poema de MIA COUTO. 


Medo
Quererei tudo
depois da morte.

Até lá,
quero apenas ressuscitar. 
Em cada dia,
ressurgir dos mortíferos desfechos.

Lá vem o poeta, dizem.
E abrem alas, receosos.

Não me importa:
de vivo não quero memória.

Medo tenho
é de ser enterrado sem história.       

2006

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

SORRISOS


Permanentemente grávida de sorrisos
Dou-os à luz em cada dia
Uns doces...outros tristes
partos do quotidiano
Quanta alegria e quanta dor
Para nascerem sorrisos de mim

sábado, 7 de maio de 2011

Dia das Mães


Desde muito pequena que me habituei a participar, no segundo domingo de Maio, numa cerimónia dedicada às Mães, que tinha (e tem) lugar na Igreja Protestante na qual a minha família se congregava. Era uma homenagem comovente em que as crianças participavam activamente. Desde a poesia, música e mímica tudo contribuía para enaltecer a figura materna.

O meu pai de flor branca na lapela.

Eu de flor vermelha na mão, bem juntinho da minha mãe.

Fui crescendo e, a dada altura, reparei que havia um outro dia da Mãe, mais celebrado entre Católicos e a sociedade em geral. Questionei-me, porquê dois dias ?…então procurei entender a razão destas celebrações separadas à mesma figura feminina e no mesmo mês de Maio.

Descobri que a ideia de instituir tal dia, partiu de Anna Jarvis. Anna M. Jarvis nasceu no dia 1 de Maio de 1864, em Webster, West Virginia, nos Estados Unidos.

Em 1905, quando a sua mãe morreu, chamou a atenção na igreja de Grafton para a importância de criar um dia especialmente dedicado a todas as mães. Três anos depois, a 10 de Maio de 1908, foi celebrado o primeiro Dia das Mães, na igreja Metodista em Grafton, West Virginia, onde ainda existe uma placa comemorativa com a seguinte inscrição: «Igreja Metodista Episcopal de Andrews - Igreja Mãe do “Dia das Mães”

A 10 de Maio de 1913, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma resolução, estabelecendo que o segundo domingo de Maio fosse considerado Dia das Mães. E, o Decreto incluindo este dia no calendário federal foi assinado pelo Presidente Woodrow Wilson, em Maio de 1914, com a presença de Anna Jarvis, do Secretário de Estado William Jennings Bryan e de alguns Senadores.

A ideia de usar duas flores (originalmente cravos) de cores diferentes, conforme ainda fosse viva ou não a mãe de quem a usava, foi também da mesma senhora.

Em poucos anos esta data foi aceite pela maioria das comunidades cristãs (de influência Protestante) e, com pequenas modificações, é comemorada até hoje. Seria objectivo deste dia consciencializarmo-nos sobre a importância das mães cristãs. Através de palavras, presentes, actos de afecto e de todas as maneiras possíveis deveríamos proporcionar-lhes bem estar e alegria. Celebrar o dia, também, em memória de todas as mães que partiram.

Em Portugal, até há alguns anos atrás, o dia da mãe era comemorado a 8 de Dezembro, mas actualmente o Dia da Mãe é no primeiro Domingo de Maio, em homenagem a Maria, Mãe de Cristo.

Amanhã é Dia das Mães…e eu de flor branca na mão!

domingo, 1 de maio de 2011

Esperança ?

Muito interessante esta forma de ver a esperança...

“Hoje não há razões para otimismo. Hoje só é possível ter esperança. Esperança é o oposto do otimismo. “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração.” Camus sabia o que era esperança. Suas palavras: “E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível…” Otimismo é alegria “por causa de”: coisa humana, natural. Esperança é alegria “a despeito de”: coisa divina. O otimismo tem suas raízes no tempo. A esperança tem suas raízes na eternidade. O otimismo se alimenta de grandes coisas. Sem elas, ele morre. A esperança se alimenta de pequenas coisas. Nas pequenas coisas ela floresce…”
Rubem Alves

quarta-feira, 6 de abril de 2011

"FELICIDADE REALISTA" ( Mário Quintana )

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

domingo, 6 de março de 2011

Acordo Ortográfico


Segundo a aprovação do Governo, a aplicação do acordo ortográfico da língua portuguesa no sistema educativo será já no próximo ano lectivo 2011/2012.

Mas, nota-se entre a maioria dos professores uma alergia a essa aplicação. Essa relutância não se sente unicamente no espaço escolar, muitos cidadãos referem-se a isso com um enorme desconforto e até aborrecimento.

Para ser sincera tive que percorrer um caminho de consciencialização para esta mudança. Eu, que sempre tentei ser fiel ao meu português de Portugal. Fiz sempre um enorme esforço para não me deixar contaminar por brasileirismos, apanhei um susto quando pensei que tinha que me render a um português miscigenado.

Mas uma língua viva, cruza-se, evolui e renasce. O acordo ortográfico é o acto fúnebre de muitas das letras que ficaram mortas nas palavras que falamos. E isso é natural. Se assim não fosse ainda escrevíamos farmácia com “ph” entre muitas outras palavras. Então se esta escrita viva assim cresceu e se entrelaçou com outros povos que falam esta nossa língua, porque não acordarmos num português partilhado?

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Valor

Há acontecimentos pontuais que num curto espaço de tempo, valem uma preciosidade.

Bem sei que o conceito de valor pode ser discutido e discordado. Até podemos analisar o que será um bom investimento. A falar assim, até parece que percebo muito de Finanças e vou divagar sobre conceitos económicos ! Para dissipar duvidas passo a explicar.

Fui docente numa pequena escola durante 4 anos. Deixei-a, por questões profissionais, sem a retirar do coração. Pois na sexta-feira passada ao entrar nessa escola, no intervalo do recreio das crianças, senti-me qual Jesus Cristo na entrada Triunfal em Jerusalém. À medida que as crianças me olhavam e se certificavam de que era eu mesma, corriam na minha direcção e fitavam-me como se estivessem perante uma obra de arte magnífica, com o encanto e um sorriso mais alegre do que se estivessem a receber uma enormidade de gomas coloridas. Depois davam-me abraços, puxavam-me para me dar beijos e os rostos eram de autêntica satisfação. Até os que não tinham sido meus alunos estavam contagiados de alegria.

-Mas tu não foste aluno da professora!

- Fui fui!... uma vez que professora Cristina faltou e foi substituída por ela!

Senti-me ENORME!

Há lá maior satisfação, maior reconhecimento, saudação mais genuína, do que esta!

Quando estive naquela escola dei-me, envolvi-me e estabeleci uma convivência saudável com os alunos. Toda esta recepção estava no registo da afectividade e não do conhecimento. Hum…será isto o resultado de um bom investimento? Caso não achem, eu dou-lhe um valor imenso!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Era uma vez...


Era uma vez uma coelhinha anã que passou de uma loja de animais para o quotidiano de um Jardim de Infância. Mas…como qualquer estória encantadora que se preze, teve que levar umas pinceladas de fantasia para nascer como uma verdadeira estória, a ser vivida por todas aquelas crianças.

O Senhor Tomás, desconhecido de todo o grupo, (apenas conhecido da imaginação!) dono de uma Quinta (que nem virtual!...), escreveu para a escola uma carta onde perguntava se os meninos do Jardim de Infância gostariam de cuidar de uma coelhinha pequenina que tinha perdido a mãe. O entusiasmo foi colectivo e levou de imediato a uma resposta positiva e escrita, dirigida ao simpático e anónimo Sr. Tomás.

Os dias seguintes foram dedicados a pesquisas sobre alimentação de coelhos, cuidados a ter com eles, higiene e muito mais. Quando todo o grupo já se achava capaz de receber esse novo “colega”, a professora telefonou ao Sr. Tomás (cujo contacto vinha na carta) e combinou tudo.A alegria e o nervosismo dessa chegada tornou todos ansiosos durante aquela ultima semana de Abril.

O Sr. Tomás levantava-se muito cedo e à hora que passava à porta da escola ainda estava tudo fechado. A solução foi deixar a coelhinha no café da esquina e depois o Grupo ir lá buscá-la. Mas…no dia marcado, o tempo não estava de feição e teve que ser a professora a ir busca-la ao café.O Senhor Tomás, homem muito cuidadoso, mandou-a com uma gaiola engraçada, com comedouro, bebedouro, feno e comida adequada.

E foi assim, no carro da professora que a coelha a quem chamaram de BOLINHA chegou, a 30 de Abril de 2008.

A partir daquele dia o coração daquele pequenino animal andava sempre acelerado. Todos queriam pegar, afagar, alimentar…brincar com esta nova amiga peluda e macia.

Aconteceram as mais deliciosas peripécias! Desde ter que provar lanches infantis nada ao seu gosto, até ter que ouvir histórias para adormecer, ser obrigada a entrar numa casa de legos, andar no bolso da bata, ter trela para não fugir, passear no atrelado do tractor (de brincar), tomar banho, ter

uma coleira com guizo…Era uma super-coelhinha! E a criançada vibrava com a sua presença. Nos fins de semana era muito viajada! Cada fim de semana ía para uma casa diferente. Aprendeu a controlar o stress e em situações duvidosas que a assustassem em demasia, passou a dar umas ferradelas.

Assim foi crescendo e por lá conviveu durante um ano.

No final desse ano foi viver para uma quinta verdadeira.

Recebi a noticia que morreu no passado dia 16 de Fevereiro de 2011.

Era uma vez uma coelhinha anã que passou de uma quinta verdadeira para…sabe-se lá para onde!...ela ainda salta na minha imaginação.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tens uma Magnólia branca plantada no jardim.
Eu quero plantar a paz dessa brancura em mim.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O que faz partir um dente!


Um dente fracturado foi motivo para uma consulta de emergência ao Dentista. Na realidade eu e os médicos não temos daquelas convivências regulares mas só de imaginar uma possível dor de dentes, nem hesitei! E não sendo eu cliente assídua da medicina dentária, mas sendo mulher de fidelidades, fui à minha dentista em Sá da Bandeira (Porto). Cheguei cedo à baixa portuense. Como não habito nem trabalho no centro da cidade, é para mim um privilégio poder percorrer estas ruas da urbe a meio da semana, em horário laboral. Então percorro e sorvo o momento. Quase radiografo os prédios desabitados e os poucos que vão sendo recuperados, olho as montras, os transeuntes, as cores e respiro os odores.
Pois…A abertura das lojas tem um horário mais tardio o que torna a manhã da cidade mais calma, quanto a mim! Há um ritmo e uma pulsação diferentes na vida da cidade. A baixa vive essencialmente do comércio e a maioria só abre às 10h. Assim, as ruas de Santa Catarina , Sá da Bandeira, Passos Manuel, vêem-se percorridas por algumas pessoas, enquanto os passeios e vidros são lavados, os gradeamentos são corridos e as portas das lojas começam a abrir. Há cerca de vinte anos atrás estas práticas faziam-se mas num outro horário!...(Será que as escolas não devem ponderar abrir com o mesmo horário comercial? Se calhar ficavam mais ajustadas socialmente).
Só um homem teimava em cumprir o horário tradicional de outrora…um cego que com uma voz pausada, metálica e forte repetia a sua cantilena de pedinte, sempre igual faz séculos. E essa voz como que escorria por toda a Rua de Santa Catarina…
Em bastantes lojas as meninas bem maquilhadas, penteadas e vestidas atrás dos pequenos balcões, demonstram as suas qualidades linguísticas quando teimam em falar alto com a colega do balcão do lado (que parece um clone). Lembram-me as senhoras do bairro às varandas, a conversar de varanda para varanda…Prefiro a gentileza dos velhos. Entrar nessas Lojas, como a dos Armazéns do Anjo é como sentir que ainda há gente educada, que atende com deferência, que sabe articular bem as palavras com um português simpático, sem ser berrado.
Algo permanece inalterado…as abordagens para donativos. É que distraída com as observações e os meus próprios pensamentos esqueci-me da minha máxima de jovem : “Andar na rua à defesa”. Só assim escapava aos pedintes e aos assaltantes por “esticão”.
Resumindo…o dente já está tratado! A Dentista continua linda, apesar dos anos.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Metro


A recente abertura da nova linha do Metro na área do Grande Porto foi motor destes pensamentos.
Na realidade fico fascinada com o espaço , a simplicidade e a liberdade que são oferecidos pela arquitectura e pela organização das estações do Metro do Porto.Vivendo nós num país que por vezes sinto tão Terceiro-mundista, estes espaços são uma demonstração de desenvolvimento.Somos um povo, que dadas as características latinas, é dado à “espertice” e à “tramóia”. Temos que juntar a isso o cosmopolitismo…Assim, para além das normas sociais serem divulgadas têm sempre associados mecanismos de as fazer cumprir. O Metro parece o oposto dessas posturas. O espaço é amplo, de perfeita liberdade. O cidadão age por consciência e não por coacção. Compra o título de transporte adequado, passa-o num dispositivo simples, sem gradeamentos a delimitar e dirige-se para a plataforma a fim de apanhar o metro que lhe convém. Isto sim, é digno de um pais desenvolvido em que o civismo, a cidadania e a responsabilidade são enaltecidos. Todos os que por opção não viajarem com o titulo de transporte, terão que responder pelos seus actos…são livres mas terão que responder pelas suas escolhas e incumprimentos. Metro assim, nem em Paris, nem em muitas capitais Europeias! Eu acho mesmo fantástico! Quando entro nas estações de metro do Porto até parece que estou num país diferente, em que o conceito de responsabilidade, liberdade, respeito pelas normas sociais, sentido de cuidado pelo bem comum, são o viver quotidiano de um povo.
O pior é quando saio de lá!...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Esperança...para 2011 e sempre


Dez réis de esperança

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

António Gedeão

domingo, 5 de dezembro de 2010

Aroma de Natal...já pelo ar

A Época Natalícia chegou. E mesmo que não queiramos, entramos em repetições anuais quase que irreflectidas. Mas, tirando o stress das obrigações, é um período que nos transmite sempre uma beleza especial retocada pelas saudades e pela nostalgia. Assim, cada Natal é vivido e revivido...eternizado pelos sentimentos.
Em 2008 escrevi um post que hoje voltaria a escrever da mesma forma. É ele:

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Outono

Apesar do sol não dourar e a chuva teimar em humedecer, as cores da folhagem outonal encantam-me. Muitos comparam esta época do ano ao entardecer da vida. Quem lhes dera ver humanos assim tão outonais! Eu sempre achei deslumbrante esta “passagem de modelos” arbórea. À medida que o calor se vai e nós nos vamos enroupando, muitas das árvores vão-se colorindo de castanhos, dourados e avermelhados de fim de estação. Pouco a pouco vão-se desnudando. Quando estiverem completamente nuas, nós estaremos completamente cobertos de agasalhos quentes. Por isso encantei com o Outono, desde criança! As árvores para além de corajosas fazem uma despedida belíssima ao seu vestuário de verão! (deixando as amostras das cores como pinceladas no chão).

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

DOENÇA

Há por aí muitos mortais que padecem de doenças do foro psíquico, maleitas físicas, dores diversas, síndromas da moda, alergias e doenças sazonais. Pois eu para além de sujeita a qualquer um destes males, descobri que tenho um problema crónico de ilusão. E digo isto com muita seriedade!...é verdade! Ora ao ter este problema, significa que de vez em quando tenho crises de desilusão. E essas crises dão daquelas dores de alma que demoram mais a passar que a tal da Gripe A. Por mais que tome medidas preventivas contra tal doença, o vírus é resistente e permanece sempre activo. Vai daí ando de crise em crise, de desilusão em desilusão. Agora que as crises são um pouco como os expectorantes e nos ajudam a expurgar o mal por uns tempos, também concordo. Depois, de repente vem uma corrente de ar de onde menos espero e pronto! Apanho uma “pneumonia” psicológica que me lixo!

Ando a tratar-me da última…

domingo, 17 de outubro de 2010

Morrer


Por vezes penso muito na morte...sobretudo quando estou triste. A morte é irreversível mas acaba com todo o sofrimento, quer físico quer psíquico. Cruzei os meus pensamentos com estes que aqui exponho, de Rubem Alves:

"Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados “recursos heróicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”."

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Centenário da República



Viver o 5 de Outubro de 2010, de forma banal não me pareceu muito bem. Afinal tratava-se de uma data memorável e irrepetível.
Cem anos da República!
Muitas das pessoas passam indiferentes por estas datas. Umas porque são demasiado jovens para lhes conferir importância e significado, outras porque nunca reflectiram muito nesses ideais e querem que a sua vida" corra", outras por desilusão e até comodismo e, outras porque são monárquicas. Pois desde pequena que ouvi dizer que o meu bisavô materno era Republicano. Isso trouxe-lhe bastantes problemas que eu não compreendi quando a minha avó Inês (sua filha) me contava isso cheia de entusiasmo e brilho no olhar. À medida que o tempo passa e vou saboreando a história, que também tem as suas estórias, valorizo esses ideais que outrora uniram forças para uma mudança de rumo. Por isso mesmo, fui a Lisboa vibrar com as comemorações do centenário.
A cerimónia na Praça do Municipio foi muito digna...à altura de um centenário em pleno século XXI.
Viva Portugal Republicano!


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um desconhecimento imperdoável...


Já ouviram falar da II Guerra Mundial?...uma aluna, de 15 anos, prontamente diz que sim à professora. Quando lhe é pedido para explicar à turma, sai uma explicação hilariante, que pode dar vontade de rir mas que é por si só angustiante pela tragédia e horror vividos, a que gente tão nova, nascida após a "Declaração Universal dos Direitos Humanos" vive alheia.

"Oh Stôra essa Guerra é aquela cena em que um gajo...que vivia no Iraque...ah! não é no Iraque, já não sei onde era. Ele era muito mau e matava as pessoas, muiiiitas pessoas... e nem lhes fazia o funeral nem nada!"

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Enterrar...Bibliotecas


Soube ontem do falecimento do simpático avô António, já velhinho, que vivia em Sobrado. Foi um prazer conhecê-lo e apreciar a sua colecção de miniaturas de utensílios de madeira que ele mesmo talhou. Lindo! Há uma citação, referida frequentemente pelo meu pai, a que me acostumei , de que “quando morre um velho enterra-se uma biblioteca”. E, se durante muito tempo me questionava acerca desta afirmação, hoje compreendo-a. Quando um velho termina a sua vida, com ele partem inevitavelmente todas as suas vivências, saberes, histórias, cultura. E na diferença de vida de cada um, haverá sempre uma longa história , rica de experiências…Ficarão na nossa memória todas as pequenas recordações significativas, os comportamentos deliciosos e marcantes. No entanto a essência dessa vida…os escritos dessa história, são enterrados na morte.

E sabem, já vi enterrar bastantes bibliotecas!

domingo, 15 de agosto de 2010

Sobre o ver...


Definitivamente, eu que tenho o privilégio de ter os cinco sentidos apurados (assim os aprendi na Escola Primária), elejo a visão como o mais fantástico. Ver, é algo de fascinante! Podem pensar que passei por uma cegueira temporária, mas não! É verdade que muitas vezes só valorizamos o que possuímos pela falta que sentimos. E, quanto ao belo pensamento de Saint-Exupéry de que “O essencial é invisível aos olhos”, continuo a subscreve-lo mas com a ressalva de que os olhos são essenciais a muitas visões.

Poder viajar e deleitarmos o olhar em belas paisagens, nos diversos brilhos,

nos tons…encontrar a beleza de uma paisagem agreste, de um edifício histórico, de um mar tempestuoso, de uma pintura, de uma infinidade de flores, da transparência de um rio, do planar de um pássaro, do colorido de uma penugem, da iluminação nocturna, do olhar terno de um cão e descobrir as estrelas num céu escuro…é, entre outras tantas coisas, cultuar o nosso olhar! Os mais críticos e pessimistas dirão que sou uma romântica (até que não se enganam!) e que não vejo as más construções, o lixo, os incêndios, o mau gosto...

Vejo isso também! Claro que uma visão atenta vê tudo. Aplica-se à visão o que se aplica à forma como nos relacionamos, como desejamos a sociedade em que nos integramos, como construímos o universo das nossas relações, como contribuímos para um mundo melhor. Podemos ser bons ou maus seres humanos, temos toda a potencialidade para seguirmos qualquer rumo. Podemos captar só

o "negro" ou o "arco-íris" do que nos rodeia. Quanto à visão…não será mais ou menos o mesmo? Estou em crer que sim!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Partida de Matilde

Os dias vão, os dias vêm e Matilde adormeceu hoje com o calor do Verão...

HISTÓRIA DO SR. MAR

Deixa contar...
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda...
Com muita onda...

E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...

A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe...

Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Festas de S. João









Tradições fascinantes como a Bugiada de S. João em Sobrado, são relíquias de guardar na memória das nossas experiências de vida pelo mundo. Não fora o concurso de professores e, provavelmente, nunca conheceria uma Festa tão bonita.

A poucos quilómetros do Porto, com um santo popular também venerado na minha Cidade Invicta, com uma noitada muito calorosa, dificilmente seria cativada a deslocar-me a uma pequena vila vizinha, para um festejo Sanjoanino. Mas, o acaso do concurso levou-me até Sobrado. Quanta sorte!... Na minha alma tripeira há lugar para um S. João do alho porro, cascatas, balões e sardinhas, mas abriu-se também espaço para um S. João de Mourisqueiros, Bugios e as bandas a tocar.

Sobrado apresentando grandes traços de ruralidade, onde o dia a dia ainda corre ao sabor das estações do ano ,com habitantes pacatos e bastante humildes, nada me faria pensar que guardava uma história singular com uma representação tão fascinante, rica e colorida. Guardam um tesouro que é mostrado anualmente! A grande maioria dos Sobradenses vibram com esta festividade e nela têm um grande orgulho. Como costumam dizer, têm paixão pela Bugiada. Por isso, ir no dia 24 a Sobrado é como sermos actores e envolvermo-nos na representação de uma luta lendária ente Bugios (Cristãos) e Mourisqueiros (Mouros).

Ficamos contagiados pelo entusiamo e pela beleza desta Festa. Ver crianças bem pequenas a participar como Bugios é enternecedor e demonstra a vivência de uma tradição que tem alma. Alguns dizem que este gosto vem no sangue e perpetua-se de geração em geração.

Confesso-vos, eu devo ter levado uma transfusão!

domingo, 20 de junho de 2010

Epitáfio

Ainda correm lágrimas pelos
teus grisalhos, tristes cabelos,
na terra vã desintegrados,
em pequenas flores tornados.

Todos os dias estás viva,
na soledade pensativa,
ó simples alma grave e pura,
livre de qualquer sepultura!

E não sou mais do que a menina
que a tua antiga sorte ensina.
E caminhamos de mão dada
pelas praias da madrugada.

Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)'

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Um dia assim...

Há dias assim…lindos de tão radiantes de sol, tristes e tempestuosos no nosso interior! E ficamos ainda mais tristes por não nos sincronizarmos com a beleza natural desse dia. Nesses dias abraçamos os sorrisos, repousamos nos olhares amigos, sorvemos palavras de apreço…Há dias assim em que quase cegamos.

domingo, 13 de junho de 2010

Teorias...

A nossa percepção do mundo e das pessoas advém da maneira como o captamos. Temos a tendência natural para encontrarmos regularidades, irmos caracterizando, categorizando e assim nos apropriamos da vida em sociedade. Muitas das nossas ideias, que achamos estruturadas e correctas constroem-se destas vivências. Isto tudo para dizer que nessas “leituras” que vou fazendo de quem me rodeia, cheguei a uma “teoria”. Uma “teoria” nada científica!

Há pessoas com quem me identifico claramente em poucos minutos, outras levam algum tempo para empatizar e outras ainda, tenho que aprender a compreendê-las. Mas, como sou humana, há aquelas por quem não nutro simpatia e nem tento comunicar. Um desses grupos era, nada mais nada menos, homens de cabeça rapada. As minhas poucas experiências de convívio e as figuras públicas com esse visual confirmavam esta minha conjectura. Para mim, estes eram homens convencidos, metrosexuais, de um vaidosismo doentio que até doía de tanta prepotência. Pessoas parcas em reflexões e sensibilidades, dadas ao culto do corpo. Resumindo, pessoas desinteressantes. Ora aqui estava a minha “teoria”.

Mas…o que havia de me acontecer? Em pouco tempo conheci três homens com este visual, que derrubaram este meu estereótipo. Todos têm a cabeça redondinha de calvície opcional e são excelentes seres humanos. Os três têm como inicial do nome a letra A. São os três da mesma estatura e são de uma ternura fascinante. Foi uma sorte tê-los conhecido! Tenho por eles uma enorme consideração.

O 1º A é de Abel. Líder religioso Protestante, com 62 anos de idade. Tem uma vasta cultura histórica e é alguém com quem se pode conversar horas a fio, sem se reparar que o tempo passa. É saboroso escutá-lo. Tem um grande coração e uma sensibilidade que me toca. É literalmente um cidadão do mundo, um defensor do ecumenismo e um bom homem de fé.

O 2º A é de Alexandre. Professor em funções de Direcção, com 32 anos de idade. A sua afabilidade e o tom de voz sempre baixo são a imagem de marca. Sem vaidade, revela-se um óptimo profissional e de uma grande dedicação. É alguém de quem se gosta naturalmente.

O 3º A é de Albino. Director de uma Escola, de 43 anos. Tem uma série de atributos intelectuais a que se pode juntar a sensibilidade, o encanto, a disponibilidade. Aplica a matemática à vida…arranja tempo para tudo o que considera importante, porque o organiza.

Estes pequenos tópicos apontados para cada um, são realmente diminutos face às suas qualidades.

A minha “teoria” ruiu! Conheci estes carecas espantosos! Agora estou a pensar…será que todos os homens válidos com estas boas qualidades têm o nome próprio a começar por A ?

(Foto recolhida na Internet, de um qualquer anónimo...)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Quero sabedoria II


Este post é a conversão de um comentário do meu amigo Tsiwari, que eu aqui vos lanço como uma bela reflexão. Não conhecia este episódio. Obrigada meu amigo!

Aos 17 anos, imberbe e cândido, possuía na gaveta toda a natureza metrificada e escrita, num caderno a que pus este título de sabor botânico: Lírios do Monte. Anos depois (...) parti com um amigo em peregrinação de estudo para o campo (...) - Olha: aqui tens os abrolhos. Já os conhecias? - Não, respondia eu, em êxtase de ignorância lírica. Só sabia que abrolhos rimavam com olhos. E as boninas? As que rimam com as colinas? Onde estão? (...) Um dia encontrámos no vale uma flor entranhamente roxa. - Que é? perguntei curioso. Nunca vi essa flor! - Nem eu, respondeu o meu companheiro (...) Passados dias (meu Deus! Que vergonha!) entra-me o meu amigo pelo quarto, a gritar: - Sabes que flor é? - Não! - Não fazes ideia, pá? - Não! - Faz um esforço! - Não! - Pois ouve e não desmaies: é um lírio do monte! (...) Quando lembro este episódio e folheio, colérico, os ignóbeis Lírios do Monte, sinto ganas de ir à procura de todos os meus antigos professores do liceu para pedir-lhes explicações e quebrar-lhes a cara! (...) Vocês são os responsáveis de tudo: das boninas, das avenas, dos abrolhos a rimarem com olhos, dos lírios a rimarem com martírios e de toda a minha ignorância do mundo exterior a empurrar-me para a ilusão de só existir beleza dentro de mim.
José Gomes Ferreira, O Mundo dos Outros

sábado, 5 de junho de 2010

Quero sabedoria

" Os conhecimentos dão-nos meios para viver. A sabedoria dá-nos razões para viver.Sábias são as pessoas que sabem viver. Tolo é aquele que, tendo defendido tese sobre barcos e mapas, não sonha com horizontes, não planeia viagens, não imagina portos..."

Rubem Alves in "Livro sem fim"

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Conjugação de passos

O meu eu interior, desritmou do meu eu corporal.
Não conseguem andar lado a lado!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Envelhecer



É bom envelhecer!

Sentir cair o tempo,
magro fio de areia,
numa ampulheta inexistente!

Passam casais jovens
abraçados!...

As árvores
balançam novos ramos!...

E o fio de areia
a cair, a cair, a cair...

Saúl Dias, in "Essência"

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Samuel Úria - Império

As vezes apetece-nos músicas assim...

sábado, 8 de maio de 2010

À minha Mãe


Oh mãe!
Com esse lençol pequenino bordado e rendado com tanto mimo, me aconchegaste no berço de verga. Eu cresci e o lençol ficou pequenino e alvo no gavetão da cómoda.
Oh mãe!
Outrora o usaste com amor e ternura no meu berço infantil. Hoje eu usei-o com ternura e amor para aconchegar o que de mortal e corruptível restou da tua vida.

O meu lençol pequenino, jaz agora, aconchegado no sepulcro de minha mãe.
Raquel Alves - 2009

domingo, 11 de abril de 2010

Rua do Almada


A Rua do Almada deve o seu nome ao governador geral da província e da cidade do Porto, João Manuel de Almada e Melo, enviado para a cidade no início do século XVIII, pelo Marquês de Pombal, a fim de reprimir a Revolta dos Taberneiros.

João de Almada e Melo tomou a iniciativa de renovar a cidade, "abrindo-a " para fora das muralhas e depois abrindo a "sua" rua [do Almada], que na altura se chamava Rua das Hortas, dando-lhe continuidade até à Praça da República.

As obras, naquela que se tornaria uma das primeiras grandes artérias da cidade, começaram em meados do século XVIII. A rua foi(...e ainda é), por um lado, o centro do comércio de ferrageiros, onde se comercializava tudo o que dissesse respeito a ferragens. Por outro, tornou-se uma das zonas aristocráticas do Porto, acolhendo, perto da Praça da Liberdade, as grandes famílias da cidade. Ana Plácido, a "amante querida" do escritor Camilo Castelo Branco, foi uma das célebres inquilinas desta rua.

A rua conserva, segundo Germano Silva, "as mais bonitas fachadas oitocentistas do Porto". Felizmente algumas delas têm sido reabilitadas e hoje dão morada a uma população mais jovem. Verdade!...Por lá mora agora o meu filho.